sexta-feira, 13 de julho de 2018

Toyota Yaris: rápida observação sobre os motores oferecidos no modelo brasileiro

O recente lançamento do Toyota Yaris no Brasil, já na 3ª geração mundial com uma clara divisão entre os modelos destinados a países desenvolvidos e a versão "emergente" que foi lançada no nosso país, não deixa de chamar a atenção por alguns aspectos. Não vale nem a pena entrar no mérito de um eventual fogo amigo contra o Etios, com o qual o modelo já convive em outros mercados como a África do Sul, além de haver uma situação semelhante com a Volkswagen que apesar de ter lançado a atual geração do Polo não eliminou o Gol como poderia parecer justificável. Já entre as opções de motorização, o posicionamento bastante conservador da Toyota me parece merecedor de destaque.

Apesar da tentativa de fazer do Yaris sino-tailandês um "compacto premium", algo que não foi possível forçar a barra com o Etios devido às evidências de um projeto voltado ao terceiro mundo, não deixa de soar surpreendente que a Toyota tenha aberto mão da possibilidade de oferecer um motor de 1.0L numa versão básica. Tendo em vista que essa opção já é oferecida tanto para o modelo mais sofisticado na Europa e no Japão quanto para o "emergente" em alguns países, não seria de todo impossível estender tal oferta ao Brasil caso não houvesse um evidente interesse em se desvencilhar do estereótipo de carro "popular" que essa faixa de cilindrada carrega. Portanto, sobram apenas os motores 1NR-FBE de 1.3L e 2NR-FBE de 1.5L também usados no Etios, mas com uma calibração para mais potência no Yaris.

A estratégia conservadora na escolha de motorizações não deixa de se destacar de forma negativa ao considerarmos que a Toyota perdeu uma oportunidade de trazer os motores 1NR-FKE e 2NR-FKE que emulam o ciclo Atkinson como se faz na maioria dos automóveis híbridos, de modo a favorecer a eficiência termodinâmica sem ter de lançar mão do turbo e da injeção direta como já está se tornando menos incomum entre concorrentes como o Volkswagen Polo que é hoje a referência do segmento. No entanto, é impossível ignorar que é uma aposta bastante segura, tendo em vista que o "toyoteiro" não costuma fazer muita questão do motor mais moderno e aposta na fama de indestrutível da marca. Também não deixa de merecer algum destaque a maior facilidade para converter um motor de injeção sequencial convencional para o gás natural em comparação a motores de injeção direta.

Não se pode negar que a Toyota hoje figura entre as empresas mais conservadoras no mercado automotivo brasileiro. Ainda que a marca seja vista com uma aura de alta tecnologia frequentemente associada ao Japão, e que o câmbio CVT com simulação de 7 marchas no modo sequencial faça jus a tal percepção, em matéria de motores é nítida a pouca disposição a uma maior ousadia. Enfim, seria injusto classificar o Yaris como medíocre tomando como referência os motores, que cumprem bem a função para a qual se destinam sem causar maiores dissabores a uma parcela ainda expressiva do público que permanece mais receptiva a motores de uma concepção relativamente simples.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Até que ponto seria realista apontar um sucessor para o Fusca?

Não é nenhuma novidade que o Fusca tornou-se um ícone no Brasil, e consolidou o conceito de carro "popular" antes que fosse desvirtuado pelo ex-presidente Fernando Collor de Melo quando passou a priorizar um limite de cilindrada em detrimento de outras características mais realistas de acordo com as condições de uso dos veículos no país. Hoje os segmentos de carros compactos e subcompactos estão muito mais disputados em comparação à época que o Fusca começava a dominar um mercado onde a concorrência vinha principalmente de modelos ingleses e franceses que estavam mais para uma miniatura dos carros maiores que para uma solução destinada especificamente a modelos de entrada, mas estão com uma maior similaridade técnica e já não há algum que se destaque numa proporção comparável à "revolução" provocada pelo Fusca em um país até então mais influenciado pelos carros americanos de porte mais avantajado e alguma complexidade mecânica que não deveria ser subestimada. Afinal, mesmo com suspensão independente nas 4 rodas que já se tornou incomum até em carros novos e válvulas no cabeçote que contrastavam com os motores "flathead" de válvulas laterais ainda muito usados em carros americanos até a década de '50, em pouco tempo o Fusca virou o jogo e se tornou a referência.

Como seria de se esperar, não foi uma batalha das mais fáceis tendo em vista que as "banheiras" de origem americana como o Mercury Eight ofereciam mais espaço e capacidade de carga, mas num país ainda essencialmente agrário o Fusca era beneficiado pelo motor traseiro, mais próximo ao eixo de tração e portanto favorecendo uma maior aptidão ao tráfego em terrenos mais rústicos que as ruas e estradas pavimentadas. A refrigeração a ar também se revelava um trunfo diante do que até então se oferecia no país, tendo em vista que na década de '50 nem se falava em aditivo de radiador para evitar a ebulição ou o congelamento da água em meio às temperaturas extremas durante a operação de um veículo. A ausência de um radiador que não fosse o de óleo, bem como de mangueiras e bomba d'água, já figurava como uma vantagem por reduzir os custos de manutenção. Embora hoje seja praticamente impossível cumprir as normas de emissões mantendo a refrigeração a ar num automóvel moderno, essa característica faz com que fique ainda mais difícil propor um substituto efetivo para o Fusca tendo em vista o velho mote publicitário postulando que "o ar não ferve nem congela". Claro, hoje há quem prefira adaptar um motor mais moderno e com refrigeração líquida num Fusca pelos mais variados motivos como um melhor desempenho ou economia de combustível, mas a refrigeração a ar permanece contando com entusiastas fervorosos.
A carroceria com duas portas, que no início foi também tratada como uma vantagem tendo em vista que requeria menos uso de graxa nas dobradiças e ao menos em teoria oferecendo mais resistência à torção quando comparada a uma com 4 portas, hoje seria considerada indesejável pela maior parte do público brasileiro. Não deixa de ser portanto interessante observar o contraste com o Citroën 2CV, que no Brasil foi inexpressivo mas foi talvez o concorrente de maior peso contra o Fusca em alguns dos principais mercados onde o automóvel passava por um processo de popularização semelhante, e que apesar de recorrer a motor e tração dianteiros como se vê em carros urbanóides modernos não deixava de oferecer uma aptidão razoável a condições de rodagem severas que poderia atender bem à população do interior ou de periferias com infraestrutura precária. De certa forma, o 2CV era ainda mais rústico e eventualmente possa ser reputado mais versátil que o Fusca caso consideremos a maior facilidade não só na acessibilidade de passageiros no banco traseiro mas também para acomodação de bagagens ou carga, e num outro momento histórico chegou a estar mais próximo de ter um "sucessor espiritual" efetivamente realista aproveitando o mesmo conjunto mecânico. Alguns fãs incondicionais do Fusca podem considerar descabida a comparação porque o Citroën 2CV usava um motor que chegou a ter menos da metade da cilindrada de um Fusca do mesmo ano de fabricação, mas as propostas de ambos eram muito semelhantes.

Aquele que pode ser tratado como o mais próximo de um efetivo "sucessor espiritual" para o Fusca foi o Gol quadrado, que apesar de recorrer à configuração de motor e tração dianteiros usava o bom e velho boxer quando foi lançado, mas só se tornou um sucesso de mercado quando aderiu a um motor de refrigeração líquida. A aparência mais de acordo com as aspirações do público urbano dos anos '80 não deixava de ter sua relevância no sucesso comercial do Gol, mas as condições brasileiras tanto no âmbito econômico e social quanto na precariedade da malha viária não deixavam de fomentar alguma desconfiança inicial diante de um veículo com uma concepção básica tão discrepante do que viria a ser substituído. Outra vez buscando um exemplo na Citroën visando estabelecer uma comparação equilibrada, a experiência devidamente consolidada da marca com a tração dianteira proporcionou uma transição muito mais suave para modelos então modernos e mais orientados a um público urbano que não se dispunha a abrir mão de um acabamento menos rústico, como podia ser observado no Visa que ofereceu tanto motores com 4 cilindros em linha e refrigeração líquida a gasolina ou diesel (caso do exemplar da foto abaixo) em posição transversal com câmbios de 4 ou 5 marchas quanto o boxer de 2 cilindros refrigerado a ar em posição longitudinal e com câmbio de 4 marchas como no 2CV.


Atendo-se novamente à linha Volkswagen, dentre os modelos atuais o up! é o que vem sendo tratado como o mais próximo de um sucessor para o Fusca tomando por referência o posicionamento como modelo de entrada na maioria dos mercados onde é comercializado, embora o modelo de produção em série tenha abandonado o motor traseiro que chegou a ser cogitado na fase de projeto. Mas como não teve no Brasil o sucesso comercial inicialmente esperado, acabou alçado à condição de "carro de nicho", enquanto as gerações atuais de Gol e Polo disputam mais facilmente a atenção de um público generalista. O tamanho compacto atrai o público urbano pela facilidade de estacionar, e a opção pelo motor TSI dotado de turbo e injeção direta mesmo passando longe de ser barata e facilitar a execução de reparos improvisados rendeu um destaque no tocante ao desempenho conciliado à economia de combustível, mas nem a versão pretensamente aventureira cross up! consegue inspirar a mesma confiança para uso severo que um Fusca transmite tanto original quanto modificado ao estilo "Baja Bug". E que não venham os fãs do up! dar sermão sobre segurança, ou fazer acalorados discursos em torno de quantas estrelas tenham sido obtidas nos testes do Latin NCAP, porque apesar desse tema ser relevante acaba agregando um custo que vem tornando o carro 0km uma perspectiva ainda mais distante para uma parte considerável do público brasileiro.

A bem da verdade, como o Fusca usava chassi separado da carroceria, a mesma facilidade observada para se fazer alterações de carroceria sem que a rigidez estrutural fosse totalmente comprometida também poderia ter servido de pretexto para outras atualizações não apenas de estilo mas também de freios e suspensão que pudessem ter mantido essa configuração competitiva diante de projetos mais recentes que recorrem ao monobloco e hoje disputam o segmento dos carros "populares". Por mais que tal abordagem tivesse sido aplicada e não viesse a eliminar os custos de desenvolvimento quando eventuais atualizações fossem consideradas, não convém esquecer que o uso de conjuntos mecânicos do Fusca já foi uma solução bastante comum para salvar do sucateamento modelos importados até mesmo originalmente dotados de motor dianteiro como um Simca 8 remontado sobre um chassi encurtado de Fusca que um tio meu teve ou um Citroën Traction que eu vi aqui em Porto Alegre a alguns anos atrás. Por mais que essas adaptações tenham sido comuns entre as décadas de '70 e '90 e fossem motivadas basicamente pelas dificuldades na obtenção de peças de reposição originais, não dá para ignorar que apenas reforçam uma vez mais a versatilidade inerente ao projeto básico do Fusca e não deixa de dificultar mais ainda a busca por um efetivo substituto.

Digno de uma menção especial dentre as tentativas de suceder o Fusca foi o conturbado projeto dos Gurgel BR-800 SL e Supermini, com motor dianteiro e tração traseira que podiam levar a crer em um prejuízo às capacidades de incursão por terrenos irregulares mas cuja procura por um equilíbrio de peso na proporção de 50% por eixo quando vazio visava atenuar e até seria naturalmente compensada ao trafegar com carga. Tinha seus méritos em função de ter sido projetado especificamente para atender às necessidades brasileiras, ao invés de ser uma mera simplificação de projetos destinados aos países desenvolvidos como passou a ocorrer a partir de '90 quando o incentivo fiscal originalmente instituído em '87 pelo ex-presidente José Sarney para veículos com motor até 800cc foi alterado por Collor e passou a abranger um limite de 1000cc que se mantém até a atualidade. O motor boxer de 2 cilindros, que chegou a ser tratado equivocadamente por parte da mídia e do público como se fosse "meio motor de Fusca" mesmo recorrendo à refrigeração líquida e comando de válvulas com sincronização por corrente, teria sido desenvolvido a contragosto pelo engenheiro João Augusto Conrado do Amaral Gurgel após uma negociação de uma licença para produção e uso do motor do Citroën 2CV ter sido abortada em virtude de uma cláusula contratual que condicionaria eventuais exportações a uma autorização prévia da Citroën. Ironicamente, hoje muitos remanescentes desses modelos produzidos respectivamente de '88 a '91 e de '92 a '95 rodam com motor Volkswagen adaptado.

Desde o Fiat Uno Mille que foi o primeiro a se beneficiar da tributação mais favorável que originou o atual conceito de carro "popular" até o Chevrolet Onix que tornou-se um improvável líder não só no mercado brasileiro mas também na América Latina, talvez o aspecto que mais se aproxime do legado do Fusca seja um receio do consumidor em apostar nas novas tecnologias para os motores. De certo modo remetendo à incredulidade de um executivo da Opel que teria reputado o motor do Fusca como muito sofisticado por incorporar conceitos então mais difundidos entre motores aeronáuticos à época da apresentação dos primeiros protótipos na Alemanha, o brasileiro se acostumou a negligenciar a manutenção preventiva motivado não apenas pela má-vontade de uma parte ainda expressiva dos mecânicos que resiste em se aperfeiçoar para trabalhar em veículos de maior complexidade técnica mas também pela busca da economia porca ao usar insumos de especificação mínima ou abaixo da recomendada e à procura pelo medíocre que faça um servicinho meia-boca apenas pelo preço menor que o de um profissional competente. Fazer uma gambiarra somente para tentar suprimir o efeito de uma pane que tenha surgido durante uma visita a parentes que morem em algum rincão isolado no interior até que se faça o reparo correto é aceitável, mas quando a prática se torna constante é o caso de se reavaliar o quão oportuno seria se desfazer do Fusca por um carro de motor menos rústico.

Talvez a abordagem mais eficiente no tocante a carros "populares" seja a do Japão, onde modelos tão diversos quanto um hatch claramente urbanóide como o antigo Subaru Vivio até um jipinho com boa aptidão a percursos fora de estrada como o Suzuki Jimny acabam por se complementar e atender a um público com necessidades e preferências mais variadas que possam não ser necessariamente satisfeitas por um único modelo. Embora aspectos da regulamentação japonesa para os kei-jidosha como o limite de cilindrada até 660cc e potência até 64cv ou as dimensões máximas de 3,40m de comprimento por 1,48m de largura e até 2 metros de altura tenham uma eficácia questionável pela nossa perspectiva brasileira, como a necessidade de recorrer ao turbocompressor para se alcançar o limite de potência previsto e o custo de produção possa ficar maior que o de um motor de aspiração natural com cilindrada superior ou que um descaso com a manutenção do turbo viesse a prejudicar a vida útil operacional do veículo, bem como a necessidade de atender a uma maior variedade de cenários operacionais caso seja o único veículo de um núcleo familiar, ainda é o exemplo que me parece mais realista apesar de não deixar de ter suas dificuldades de ordem técnica. Cabe destacar o sucesso de microvans de projeto originalmente japonês como a Asia Motors Towner de fabricação coreana que teve boa aceitação no Brasil durante a década de '90 e foi derivada de uma geração da Daihatsu HiJet, ou das inúmeras imitações chinesas da Suzuki Carry como as Chana/ChangAn Star que para o Brasil vinham só com tração traseira mas em outros mercados chegaram a contar até com opção de tração 4X4.

Com um projeto evidentemente antigo mas que ainda apresenta méritos, o Fusca mantém uma legião de admiradores que o reverenciam não apenas pela importância histórica mas também por se manter como uma opção realista para atender de forma satisfatória a alguns usuários do modelo tanto na cidade quanto em zonas rurais e periferias. Sem levar em consideração fatores como a facilidade de manutenção e uma adequação a condições de rodagem severas que dispense uma "tropicalização", é muito difícil atribuir um sucessor que ofereça versatilidade comparável nos mais diversos cenários operacionais a um custo razoável e com relativa facilidade para receber adaptações e melhorias. Por mais que hoje o mercado brasileiro apresente uma maior competitividade nos segmentos de entrada, o que de certa forma acabaria diminuindo o destaque a ser alcançado por um eventualmente legítimo "sucessor espiritual", o próprio Fusca chegou a concorrer no exterior tanto com modelos de projeto próximo em idade quanto outros mais modernos e até alguns Fords ingleses mais primitivos sem deixar de se destacar por suas próprias qualidades. Enfim, por mais que já tenha sido tentado em momentos até mais favoráveis a uma movimentação nesse sentido, hoje não seria muito realista apontar um sucessor para o Fusca...

domingo, 3 de junho de 2018

Ainda haveria espaço para a injeção eletrônica monoponto?

Depois de ver no YouTube alguns vídeos de carros originalmente equipados com injeção eletrônica multiponto sendo adaptados com carburador tanto no Brasil quanto em outros países, me pareceu oportuno tratar desse tema. Afinal, mesmo que parecesse até razoável por ter menos componentes e a princípio diminuindo o custo inicial, a injeção eletrônica monoponto deixou de ser usada em modelos comercializados regularmente no Brasil pelo final de 2001 quando a Fiat substituiu no Uno Mille o motor Fiasa por uma versão de 8 válvulas do Fire que não só vinha com a injeção multiponto mas também trazia o corpo da borboleta de admissão eletrônico sem ligação mecânica com o pedal do acelerador (drive-by-wire).
De fato, por se tratar de um modelo desde o início destinado a um segmento mais modesto do mercado, não deveria ser de se estranhar a procura por soluções pouco ortodoxas que apresentassem um custo mais baixo, não só devido à maior complexidade inerente à eletrônica mas também à mão de obra disponível que nem sempre é das mais familiarizadas com esses sistemas. E por falar no motor Fire, recomendo esse vídeo de um chileno radicado na Argentina adaptando carburador num Fiat Siena com o motor Fire 1.3 de 16 válvulas:
Embora o acesso a peças de reposição e equipamentos adequados para a manutenção corretiva de sistemas de injeção eletrônica se tornem efetivamente mais desafiadores numa região mais distante de grandes centros como ainda é o caso de alguns vilarejos na Patagônia, esse tipo de modificação também encontra adeptos entre os argentinos urbanos e nas "villas miseria" de Buenos Aires e outras cidades grandes em função do custo. Ao contrário do Brasil, onde já está mais difícil encontrar um carburador novo a preços acessíveis para reposição e a injeção eletrônica ganhou bastante espaço em adaptações principalmente pela influência da empresa gaúcha FuelTech no mercado de preparação de motores, na Argentina ainda há uma maior facilidade para encontrar carburadores novos tanto no mercado de reposição quanto por se manter em uso na maioria das motos 0km de pequena cilindrada. Apesar da presença do carburador no Brasil estar se tornando menos comum até no segmento motociclístico, a ponto de modelos como a Honda CG também terem aderido à injeção eletrônica (naturalmente monoponto por ser uma moto monocilíndrica), ainda tem sido mais fácil encontrá-lo para reposição para motos.
 À medida que a injeção eletrônica vai se massificando também em motos utilitárias com motor de 1 cilindro, e considerando que o carburador de gerações anteriores das mesmas vem sendo usado para adaptações em carros como a Volkswagen Parati G3 do vídeo abaixo, não me causaria tanta surpresa que se tentasse algo similar tomando como base o hardware de uma injeção eletrônica monoponto originalmente destinada a uma moto pequena. Embora muitos proprietários de carros adaptados com carburador de moto costumem relatar uma redução do consumo de combustível, invariavelmente esse recurso sacrifica a capacidade de ajuste da mistura ar/combustível em tempo real que poderia levar a uma melhora não só na questão do consumo mas também das emissões de poluentes que acabam sendo deixadas para segundo plano por muitos que querem apenas fazer o veículo funcionar novamente...

A favor de um retorno da injeção monoponto em aplicações automotivas, cabe recordar o exemplo do motor Fiasa 1.5 usado em alguns modelos da Fiat como o Fiorino. Os motores Fiasa ainda contavam com o coletor de admissão aquecido, que evitaria uma condensação da gasolina (ou etanol quando aplicável) e a consequente formação de gelo no coletor, além de no caso do 1.5 haver uma ligeira vantagem no torque em baixas rotações quando equipado com a injeção monoponto ao invés da multiponto.
Seria possível buscar diferentes argumentos para tentar justificar tal ocorrência, que poderia talvez ser replicada num motor de injeção multiponto mediante o uso de dutos de admissão mais longos. Mas numa época em que até a injeção direta mesmo ganhando espaço em veículos de projeto bem mais recente que o Fiorino acaba encontrando alguma resistência, em função do custo e também do impacto sobre as emissões de óxidos de nitrogênio (NOx) e alguma fuligem que antes eram mais críticos em motores Diesel, talvez até esse aparente "estrangulamento" do motor quando equipado com uma injeção eletrônica monoponto pudesse ser útil para reduzir a carga de recirculação de gases de escape (EGR - Exhaust Gas Recirculation) que se faria necessária para manter os NOx sob controle. E um ligeiro "downrevving" combinado a uma relação de marcha alongada na mesma proporção do aumento do torque em baixas rotações seria benéfico à economia de combustível.

O vídeo a seguir, que mostra uma Chevrolet Silverado 3500 mexicana convertida para gás liquefeito de petróleo (GLP - "gás de cozinha") usando um carburador de empilhadeira e uma ignição eletrônica analógica ao invés da injeção eletrônica multiponto e ignição mapeada originais de fábrica também fomenta questionamentos até mesmo em função de já ser bastante comum o uso de kits de conversão para combustíveis gasosos com gerenciamento eletrônico.
A indústria de conversão de veículos para gás natural teve que se adaptar à exigência de kits gerenciados eletronicamente para aplicação em modelos fabricados a partir de '97, tanto nos sistemas de "pressão negativa" que são monoponto quanto nos de "pressão positiva" que são multiponto e se tornaram mais comuns à medida que as conversões de 5ª geração ganhavam espaço. De certa forma, embora ainda haja quem recorra a kits "torneirinha" com a distribuição do combustível em ponto único mas sem gerenciamento eletrônico para conversão a gás natural no Brasil mesmo em modelos originalmente equipados com injeção multiponto, a experiência com a eletrônica no sistema de "pressão negativa" poderia soar como um precedente para desmistificar eventuais adaptações da injeção eletrônica monoponto para combustíveis líquidos como a gasolina e o etanol em substituição a uma multiponto que apresentasse falhas graves ou tivesse alguns componentes eletrônicos furtados como infelizmente é comum em veículos provenientes de leilões.

Mas além de um custo intermediário entre gambiarras com carburadores e uma injeção multiponto, também não se pode ignorar a integração entre o gerenciamento eletrônico dos motores e alguns sistemas de segurança modernos como o controle de estabilidade que já seria possível com uma injeção monoponto mas impossível com um carburador. Logo, embora num primeiro momento pareça mais difícil justificar como algo "em cima do muro", a questão da segurança também pode pesar para que a injeção monoponto viesse a ser menos desprezada.

domingo, 29 de abril de 2018

BMW R1200C, uma das motos mais bonitas já fabricadas

Produzida entre os anos de 1997 e 2004, a R1200C foi o primeiro modelo da BMW Motorrad para o segmento das customs. Naturalmente, além da transmissão final por eixo cardan tradicional nas séries R e K, o modelo também se diferenciava das principais concorrentes por usar o motor "flat-twin" com o virabrequim em orientação longitudinal e os cilindros avançando pelas laterais. Logo, por mais que o sistema de refrigeração misto a ar e óleo (também conhecido entre entusiastas da marca como "oilhead") possa não oferecer o mesmo nível de precisão do gerenciamento térmico que pode ser obtido mediante o uso da refrigeração a água na geração mais recente das R1200 (exceto a RnineT que manteve o motor "oilhead"), já fica melhor que nas V-twin com o virabrequim em orientação transversal que quando refrigeradas só a ar ou mesmo a ar e óleo tendem a superaquecer o cilindro posterior.
Outra característica que sempre me chamou a atenção nesse modelo é o assento traseiro com uma articulação que permite o uso como apoio para as costas do piloto quando não estiver transportando passageiro e revelando uma grade que pode servir de suporte para pequenos volumes como uma mochila ou um bauleto. Uma solução a meu ver bastante inteligente, e que poderia ser aplicada não só em outras custom mas também em motos de segmentos mais modestos. Enfim, por mais que na linha da BMW Motorrad eu prefira as versões de uso misto on/off-road (GS - Gëlande/Strasse), não consigo negar a admiração pela R1200C.

sábado, 14 de abril de 2018

Yamaha XT 600 Ténéré brasileira

Uma das motos mais cultuadas dentre as clássicas da Yamaha é, sem dúvidas, a Ténéré. O exemplar da foto é de fabricação brasileira, do modelo feito entre '88 e '90 já com o desenho que havia saído de linha no modelo japonês lançado originalmente em '85. Já incorporava a partida elétrica, que obrigou a uma redução na capacidade do tanque de combustível dos 28 litros para 23 litros em função do espaço que o filtro de ar e uma bateria de maior capacidade requeriam. Apesar de preservar alguns detalhes originais, o exemplar da foto estava com o paralama dianteiro e a carenagem de farol da XTZ 125.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Furgonetas multiuso x SUVs compactos: qual seria efetivamente a melhor opção?

Furgonetas multiuso como a antiga Ford Courier Kombi de fabricação espanhola, ainda me parecem o tipo de veículo mais apropriado para atender da forma mais satisfatória possível a usuários com diferentes necessidades, desde aqueles que desejem um único automóvel que possa servir tanto o uso a trabalho quanto para transporte familiar, até os que apreciem para fins recreativos o amplo espaço interno. Não é de se estranhar, portanto, que muitos turistas argentinos ainda as usem para ir veranear em Florianópolis por exemplo. Mas seriam efetivamente melhores que os SUVs compactos da moda?

Até mesmo a proposta "aventureira" pode ser incorporada às furgonetas, como foi o caso da Peugeot Partner Patagónica argentina que no Brasil foi renomeada como Partner Escapade. No entanto, hoje o modismo dos SUVs faz com que os consumidores brasileiros não contem mais como essa opção no mercado de veículos 0km, embora ainda seja oferecida na Argentina e por lá de certa forma sofra um fogo amigo por parte do Peugeot 2008 fabricado no Brasil. Naturalmente, o projeto mais antigo e as raízes essencialmente utilitárias fazem dessa versão ainda baseada na 1ª geração da Partner um pouco menos atraente para quem se deixe iludir pela aparência em detrimento da utilidade, além da oferta de itens de conforto mais valorizados hoje como o câmbio automático que não estão disponíveis na Partner Patagónica mas oferecidas no 2008, apesar de recorrerem ao mesmo motor na versão do 2008 que conta com esse opcional.
O foco cada vez mais direcionado ao uso urbano e rodoviário dos SUVs, em substituição às minivans e station-wagons como o veículo favorito das famílias de classe média, faz com que já não seja nada incomum alguns modelos como o já citado Peugeot 2008 nem sequer oferecerem tração nas 4 rodas. Logo, perde-se um eventual atrativo não somente para atender à busca pela imagem pretensamente aventureira bem ao gosto dos "jipeiros de apartamento" mas até no tocante à segurança em condições de baixa aderência como chuva intensa e neve. Mesmo podendo-se alegar que um SUV compacto da moda vá ter um acerto de suspensão mais confortável por ser especificamente direcionado ao uso no transporte de passageiros ao invés de carga, é perfeitamente compreensível que as furgonetas ainda se justifiquem pela versatilidade e ofereçam uma relação custo/benefício satisfatória.
Considerando que passam a não ter efetivamente uma desvantagem na capacidade de incursão fora de estrada em comparação a uma parcela expressiva dos SUVs compactos hoje disponíveis no mercado, chega a ser ilógico que o consumidor brasileiro mediano tenha perdido o interesse pelas furgonetas, ao passo que os argentinos e uruguaios continuam bastante receptivos a essa categoria. Naturalmente o marketing, que apresenta os SUVs como artigo de ostentação para os "cowboys de apartamento", e também costuma explorar a impressão de poder ao "ver o trânsito por cima" que agrada às peruas de plantão, tem sua influência. Enquanto isso, quem eventualmente precise de um veículo adequado não só para desfilar em estacionamentos de shopping mas que seja capaz de atender tanto ao uso familiar quanto ao trabalho em diferentes condições de terreno que nem sempre requeiram tração 4X4 já não tem muitas opções.

Outra circunstância que torna um tanto injustificado o aparente desinteresse brasileiro por furgonetas é a comparação entre modelos como o antigo Volkswagen Caddy de 2ª geração que foi importado da Argentina e comercializado como Volkswagen Van e a atual geração da Saveiro oferecer a opção pela cabine dupla. Pode-se alegar que as pick-ups compactas hoje supririam a falta das furgonetas, mas o fato de diferentes tipos de veículo originalmente voltados ao trabalho serem tratados de forma distinta pelo público generalista é algo curioso. Além do mais que as pick-ups ainda fazem frente aos SUVs...

terça-feira, 3 de abril de 2018

Observações sobre motores 2-tempos e uma dificuldade para retomada ao mercado automobilístico

Não é de hoje que os motores 2-tempos tem entusiastas fiéis que defendem sua preservação em automóveis e (principalmente) motocicletas antigos, e alguns eventualmente alentem uma esperança pela volta ao mercado de veículos novos em países onde as normas de emissões os tornaram obsoletos. Ao menos no Brasil, o exemplo mais conhecido de automóvel equipado com esse tipo de motor foi a linha DKW-Vemag. A simplicidade construtiva, ressaltada pela menor quantidade de peças móveis, parecia uma boa justificativa para que fossem usados em veículos compactos, mas de certo modo essa mesma característica acabou por dificultar uma adequação às novas exigências não só no âmbito "ecológico" mas também foi perdendo espaço à medida que os motores 4-tempos (ciclo Otto) foram estreitando a desvantagem que apresentavam no desempenho.
Cabe destacar que o primeiro modelo de carro efetivamente reconhecido como de fabricação nacional recorria justamente ao motor 2-tempos. A inesquecível Vemaguet, embora desafiasse a concepção predominantemente americana com a qual a grande maioria dos brasileiros havia se acostumado, não só pelo motor 2-tempos mas também pela tração dianteira que ainda estava longe de se consolidar como unanimidade nos automóveis nacionais (naturalmente excluindo desse contexto os soft-roaders com tração nas 4 rodas que só servem para as peruas desfilarem no estacionamento do shopping), foi até certo ponto injustiçada por um mercado que nem ao menos tentava compreender peculiaridades do motor 2-tempos como a necessidade de acrescentar óleo à gasolina, embora na região Sul tenha até a atualidade uma legião de admiradores. Afinal, o que é a paz de espírito de não precisar trocar uma corrente de comando de válvulas nem ter que se desfazer de óleo lubrificante usado diante desse pequeno inconveniente???

A bem da verdade, não seria de todo errado atribuir à Volkswagen uma influência sobre o mercado, tendo em vista que ao comprar a Auto Union na Alemanha e a Vemag no Brasil já tratou de encerrar precocemente a trajetória dos DKW a partir de '67 e consolidar a prevalência dos motores 4-tempos no segmento automotivo. No caso brasileiro especificamente, a anterior insistência da Volkswagen em não oferecer automóveis com 4 portas fez necessário que se buscasse um sucessor indireto para os derivativos locais do DKW F94 como o sedan DKW-Vemag Belcar, e assim surgiu no final de '68 o Volkswagen 1600 4 portas, conhecido popularmente como "Zé do Caixão" e que fez mais sucesso entre os taxistas do que junto ao público mais generalista. Desde então, nunca mais nenhum carro equipado com motor 2-tempos conseguiu obter sucesso comercial no Brasil.

Considerando que até '76 ainda havia relativa facilidade para importar carros, e que mesmo durante o regime militar havia intercâmbio comercial entre o Brasil e alguns países da cortina de ferro como a antiga Alemanha Oriental, até poderia acontecer de algum louco aventureiro se arriscasse a comprar um Trabant 601, que se manteve em linha de '64 a '88 quando teve o motor 2-tempos de 2 cilindros e 594,5cc refrigerado a ar substituído por um 4-tempos de 1.1L com 4 cilindros e refrigeração líquida de origem Volkswagen até o fim da produção em princípios da década de '90. Outro modelo dotado de motor 2-tempos em algumas versões antigas sendo também o último a contar com tal opção num país desenvolvido como o Japão foi o Suzuki Samurai, que foi oferecido até '87 com um de 3 cilindros e 539cc com refrigeração líquida mesmo já tendo opções de motores 4-tempos na mesma linha, com a permanência favorecida não apenas em função do custo mas também de uma aparente vantagem para operar em terrenos com maior variação de inclinações do terreno montanhoso japonês por não depender de um sistema de lubrificação pressurizado. Embora alguns Samurais tenham sido importados através da Zona Franca de Manaus antes da reabertura do mercado em '90, a chegada de eventuais exemplares com motor 2-tempos por essa via foi bem mais modesta diante do sucesso que as versões importadas oficialmente com motor 4-tempos fizeram.
No caso do Samurai, enquanto o motor 2-tempos concorria na própria linha com um 4-tempos dotado de turbocompressor e 543cc que também não chegou oficialmente ao Brasil, cabe observar algumas peculiaridades que vão além do controle de emissões mas auxiliaram a consolidar o motor 4-tempos. A necessidade de um sistema de lubrificação pressurizado e com recirculação do óleo já faz com que o turbo seja mais adequado aos motores 4-tempos, tendo em vista a necessidade de manter o eixo do rotor adequadamente lubrificado e pelo óleo também acumular também a função de refrigeração da carcaça central do turbocompressor. E mesmo que o consumo ficasse um tanto mais alto por se fazer necessário um enriquecimento da mistura ar/combustível nos motores turbocomprimidos antigos, tanto os equipados com carburador quanto os dotados de injeção eletrônica no coletor de admissão, ao considerarmos que os motores 2-tempos sofriam com a perda de mistura crua pelo escapamento ainda havia uma vantagem para o 4-tempos turbo devido à pressão absoluta no coletor (MAP - Manifold Absolute Pressure) mais constante mesmo ao trafegar por diferentes altitudes assegurar um menor prejuízo ao desempenho nessas condições.

Já nas motos o motor 2-tempos teve uma sobrevida mais prolongada, com modelos como as Yamaha RD 135 permanecendo em catálogo no país até '99 e as DT 180 saindo de linha em '97 enquanto as DT 200 R foram oferecidas até o ano 2000, sem levar em conta outros países onde ainda se encontra DT 0km. A relativa facilidade para fazer modificações de baixo custo com o intuito de incrementar o desempenho, eventualmente recorrendo-se até ao uso de etanol com óleo de base vegetal para kart, não deixa de ser até hoje um atrativo para alguns entusiastas tanto em competições oficiais quanto em rachas ilegais disputados em vias públicas. No entanto, o consumo de combustível relativamente alto e a rede de concessionárias menor que a da Honda levaram o mercado motociclístico brasileiro a ficar mais receptivo aos motores 4-tempos principalmente a partir da 2ª metade da década de '90. Outro ponto digno de nota é que muitos brasileiros consideravam inconveniente a necessidade de adicionar óleo à gasolina para uso em motores 2-tempos ao invés de simplesmente trocá-lo periodicamente num 4-tempos, enquanto no sudeste asiático e mesmo em alguns países vizinhos como a Colômbia se desenvolveu uma forte cultura em torno principalmente das DTs antes que começassem a ser impostas restrições à circulação de motos com motor 2-tempos em Bogotá.

É preciso entender que os motores 2-tempos, não sendo dotados de válvulas de admissão e escape, dependem do movimento do pistão para fechar as janelas de transferência da mistura ar/combustível entre o cárter e os cilindros e as de escape, acabam por facilitar a fuga da mistura tendo em vista que o escape e a transferência subsequente ocorrem durante o mesmo tempo. Enquanto nos motores 4-tempos, apesar de ocorrer um fenômeno semelhante durante o "cruzamento de válvulas", a simples presença das mesmas e a presença hoje mais maciça dos comandos de válvula variáveis acabou por minimizar o problema durante uma faixa mais ampla de rotações, enquanto nos 2-tempos o dimensionamento das câmaras de reflexão incorporadas ao escape de alguns desses motores para forçar um retorno da mistura crua tende a ser otimizado para um regime específico, e naturalmente interfere também nas respostas à aceleração. Posteriormente ganhou espaço a injeção direta, que ainda hoje se faz mais presente em motores marítimos como na linha Evinrude E-TEC, e diminui as emissões de hidrocarbonetos crus tendo em vista que a gasolina é dosada numa quantidade exata já depois que as janelas de escape estão fechadas, de modo que só o ar e o óleo passam pelo cárter e fazem a transferência. Com uma diluição menos intensa do óleo lubrificante, uma menor quantidade do mesmo pode ser usada, além do consumo de combustível também ficar mais contido.
O sistema usado nos motores Evinrude, originalmente desenvolvido pela empresa australiana Orbital Engines, chegou a receber pesados investimentos da Ford durante a década de '90 com a expectativa de aplicá-lo a modelos compactos como o Fiesta após testar motores experimentais de 3 cilindros e 1.2L usando o mesmo princípio operacional. De fato, a redução no consumo de combustível foi destacada à época, mas alguns desafios já começavam a se evidenciar, com destaque para as emissões de óxidos de nitrogênio (NOx) que atualmente estão na mira de autoridades ambientais mundo afora. Por mais que um motor 2-tempos tenha uma menor quantidade de peças móveis e portanto o custo de manufatura seja sensivelmente menor, e que a injeção direta tenha encontrado espaço mais promissor hoje em motores 4-tempos, uma maior dificuldade em readequar soluções de controle de emissões já desenvolvidas de acordo com as características do ciclo Otto para tentar atender às particularidades dos motores 2-tempos não apenas durante a época dos experimentos mas também a longo prazo para assegurar que uma mudança tão drástica tivesse condições de proporcionar um efetivo retorno do investimento de forma semelhante à que ocorreu com o motor Kent/Valencia/Endura-E cujas origens remontam a compactos da Ford inglesa da década de '50 e que chegou à 2ª metade dos anos '90.
Dada a sensível diferença nos fluxos internos entre motores 2-tempos e 4-tempos, um dos recursos mais comuns para controle das emissões de NOx nas gerações atuais de motores automotivos podem não servir adequadamente. A recirculação de gases de escape (EGR - Exhaust Gas Recirculation) foi desenvolvida especificamente em função do ciclo Otto, embora hoje também atenda às necessidades de motores Diesel, mas com o fluxo de admissão não passando pelo cárter nesses casos já não há um risco de contaminar ou acidificar o óleo lubrificante como pode haver num 2-tempos. Tendo em vista que não só o óleo lubrificante ao ser queimado durante o processo de combustão forma resíduos, mas que a injeção direta também vem sendo apontada como responsável por incrementar a emissão de material particulado fino em motores do ciclo Otto, ficaria ainda mais complicado evitar o acúmulo de impurezas nos mancais de virabrequim, nos moentes de biela e nos pinos de pistão caso fosse incorporado esse método para manter os NOx dentro dos parâmetros exigidos por lei. Por outro lado, a recente incorporação de sistemas originalmente desenvolvidos para motores Diesel como o filtro de material particulado (DPF - Diesel Particulate Filter) em versões a gasolina de alguns veículos da Volkswagen como o Tiguan não deixa de fomentar expectativas para que uma estratégia semelhante possa encontrar aplicabilidade em motores 2-tempos e assegure a continuidade dos mesmos por mais algum tempo em segmentos com normas de emissões menos severas que no automotivo.
Naturalmente, pode parecer bizarro sugerir que a marca responsável por condenar a uma espécie de "morte comercial" os motores 2-tempos no mercado automobilístico possa inspirar um eventual retorno dos mesmos, além do mais diante da massificação do turbo não só em modelos como o Tiguan que o traz de série mas também em outros como o up! que contam com esse recurso como opcional. As novas regulamentações ambientais, e uma imagem de "sujos" que se consolidou em torno dos 2-tempos constituem um desafio à parte, mesmo que possam ser beneficiados já pelo uso de biocombustíveis associados a óleos lubrificantes de base vegetal que ainda são uma incógnita para os 4-tempos. Enfim, apesar de não serem de todo mal, os motores 2-tempos hoje estão longe demais de poderem agregar suas vantagens às novas gerações de automóveis.