segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Estaria a "popularização do automóvel" já consolidada no cenário brasileiro?

A alguns dias atrás eu estava num shopping e encontrei por acaso um amigo meu, que eu não via desde quando terminamos o ensino médio, e enquanto nós colocávamos o assunto em dia ele notou que o jornalista Luiz Carlos Prates, ex-comentarista de um noticiário da emissora afiliada da Rede Globo em Santa Catarina, estava circulando pelas imediações. Recentemente uma declaração feita pelo mesmo causou indignação em camadas menos abastadas da sociedade brasileira, por ter citado a "popularização do automóvel" como motivo para tantos acidentes. Criticou os "desgraçados" que "nunca leram um livro" mas adquirem um carrinho por meio de suadas prestações, e moram em "gaiolas que chamam de apartamento" (nisso ele se equivocou, pois tanto a classe média-alta ou mesmo ricos hoje optam por morar em apartamentos tendo em consideração uma sensação de segurança, acreditando estar mais protegido com os vizinhos perto o suficiente para chamar a polícia a qualquer sinal de perigo ou cercado de seguranças particulares quase como se fossem milícias de um senhor feudal, enquanto em alguns programas habitacionais na periferia se encontram uns sobradinhos até razoáveis, mas economicamente inviáveis em áreas mais valorizadas, como ocorre hoje nos novos assentamentos de moradores das antigas vilas Dique e Nazaré na zona norte de Porto Alegre), como se estes fossem os únicos culpados pelas tragédias nas estradas a cada feriadão. Sim, a falta de educação (não necessariamente erudição ou instrução escolar) provoca acidentes, mas não é só pobre que descuida da manutenção dos veículos, pratica racha ou fica parando em beira de estrada para olhar acidentes com uma curiosidade mórbida como foi dito no noticiário.


Eu até gosto do jeito que ele faz os comentários, falando com uma firmeza que não se vê tanto nesses tempos em que o gênero popularesco faz mais sucesso na mídia e a direita política brasileira está quase extinta, mas isso não significa que eu seja obrigado a concordar sempre com tudo o que ele falar e depois dizer amém...

Vale destacar a citada "popularização do automóvel": eu não posso concordar com tal colocação, tendo em vista que, por mais precários que sejam alguns modelos, o automóvel próprio ainda é visto como um luxo por uma grande parcela da população brasileira. Para muitos usuários insatisfeitos com o transporte coletivo, as motocicletas acabam sendo um paliativo mais acessível tanto por se encontrar modelos que custam menos de 20% do preço de um automóvel dito "popular" quanto pelo custo operacional algumas vezes até inferior ao que se gastaria com passagens de ônibus, apesar de não oferecer nenhuma proteção contra intempéries ou elementos presentes no ambiente urbano que possam provocar um acidente, como buracos na pavimentação ou linhas de pipa com cerol. Ainda que a indústria automobilística instalada localmente esteja vivendo um bom momento, nunca se vendeu tanta moto no mercado brasileiro, tanto em vilarejos que sofrem com a seca no sertão nordestino (chega a ser mais barato manter uma moto de baixa cilindrada que cuidar de um jegue, e como a quase totalidade das motos pequenas tem motor refrigerado a ar não gasta tanta água quanto o folclórico animal necessitaria beber para não morrer de sede) quanto em metrópoles onde a quantidade de veículos circulando (alguns realmente com a manutenção precária e ao sofrerem panes no meio da rua tornam a situação ainda mais crítica) em vias já saturadas acabam levando à busca por alternativas consideradas mais ágeis (daí sim, nunca se teve tanto acidente com "motoqueiros" inexperientes ou vitimados pelo próprio excesso de confiança trafegando nos "corredores" entre os carros).

Algo que é pouco comentado é sobre como são inadequados à realidade brasileira alguns dos carros ditos "populares", geralmente adaptações de projetos europeus (normalmente oferecidos em seus mercados de origem como opção de primeiro carro para jovens ou segundo carro da família, mas que por aqui necessitam ser "pau pra toda obra" mesmo com motores mais modestos e ainda sofrendo com a baixa qualidade da gasolina) originalmente desenvolvidos para locais com uma pavimentação próxima da perfeição simplesmente empobrecidas na oferta de equipamentos (principalmente de segurança - infelizmente um equipamento de som e alguns enfeites de gosto duvidoso são mais valorizados por grande parte dos consumidores que airbag, freios com ABS ou controles de tração/estabilidade) e às vezes até em componentes estruturais e dinâmicos, caso do Fiat Uno de 1ª geração vendido até hoje com a mesma suspensão traseira adaptada do antecessor 147, que toma tanto espaço que demanda o posicionamento do pneu sobressalente próximo ao motor e ainda apresenta tendência ao sobreesterço em curvas. A verdade é que as condições socioeconômicas locais estão mais próximas da Índia com seus carismáticos triciclos que da desenvolvida Europa. Apesar disso, projetos locais concebidos desde o início respeitando alguns aspectos especificamente brasileiros mas mantendo um nível de qualidade e segurança comparável a similares europeus como alguns dos minicarros desenvolvidos pelo saudoso João Augusto Conrado do Amaral Gurgel (em função do tamanho, seria até mais justo comparar tais modelos com o que se conhece em Portugal como "quadriciclos qualificados" com o que se oferecia no Brasil à época, ainda que o espaço interno não deixe a desejar comparado a alguns modelos mais recentes como a primeira versão do Ford Ka), acabaram sucumbindo.

Sendo assim, a falta de modelos novos realmente adequados à geografia de zonas rurais e periferias leva uma parte de seus moradores a usar veículos mais antigos, considerados mais aptos a enfrentar terrenos mais hostis e uma topografia mais irregular, e ainda há a economia no licenciamento anual por conta da isenção de IPVA. É claro que há quem aproveite o crédito facilitado para adquirir o tão sonhado carro zero-quilômetro, mas o mercado de serviços financeiros nesse segmento é dominado por instituições privadas. Mesmo assim, não são todas as famílias brasileiras que tem acesso a financiamentos para aquisição de um bem tão caro, às vezes valendo mais do que a própria residência. Portanto, apesar do mercado bastante aquecido, eu não acredito que a "popularização do automóvel" está tão consolidada no cenário brasileiro.

8 comentários:

  1. Comparto de tu concepto acerca del auto popular. No es posible decir que el auto es popular si hay unos que no logran tampoco mantener una moto.

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  2. O sr Prates está equivocado mesmo.
    Eu viajo muito, principalmente na BR 277 entre Curitiba e Foz do Iguaçu e não raramente sou ultrapassado em faixa continua e lugares perigosos por BMWs, Mercedes e outros carros de luxo. Os caras não tão nem ai com as leis de transito justo por que tem dinheiro para subornar as autoridades. Esses que mais provocam as grandes tragédias nas estradas.
    Não posso concordar com o comentário do sr. Prates.

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  3. Tem países em que o carro realmente popularizou, mesmo carro usado é bom e barato. Em alguns lugares se compra Passat alemão da década de 90 funcionando por 300 euros e nem por isso o trânsito europeu é tão violento quanto o brasileiro. O que mata não é o carro na mão do pobre, é a falta de educação mesmo.

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  4. Com certeza o Prates se equivocou e foi infeliz no comentário, para muitos o carro é um sonho de consumo independente de ano e modelo, tendo em vista que sua função é o transporte. Acidentes existem e não são só causados pelos "miseráveis", todos estamos sujeitos e corremos riscos. Tudo é provavel para todos, ninguém está livre de se acidentar ou causar um acidente.

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  5. Acidentes não sao causados apenas por "carro na mao de pobre" e sim carro na mao de irresponsável, porque quantos acidentes nao sao causados pelos boyzinhos que ganham bmw ou mercedes de presente do papai? ou alguns que se axam e começam a achar que os seus carros são avioes, e que nada pode acontecer com eles...

    o problema é a educação do povo, e não seus carros.

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  6. Posso observar que o automóvel aparentemente esta popularizado no Brasil.
    Para isto não estou falando do carro 0Km mas de qualquer automóvel.
    Temos automóveis da década de 60 ainda sendo usados em bom estado de conservação.
    Na cidade onde moro no Rio Grande Sul, segundo o levantamento feito e publicado na imprensa temos dois automóveis para tres pessoas.
    É certo que em outras cidades isto não ocorre, pois tem gaúchos que preferem seu "pingo" a um automóvel, isto vai depender das cidades e dos Estados da Federação a se considerar.
    Acho sim que o automóvel atingiu todas as camadas sociais no Brasil, o que ainda demora é o fato de todos poderem ter um automóvel 0Km na garagem.

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  7. Se a cidade em questão for Pelotas, realmente tem uma frota demasiado grande para o tamanho da cidade. Mas ainda é comum ver "bicicleteiros" em grande quantidade pelas principais avenidas, desde guris sem idade para tirar carteira de habilitação até trabalhadores que aproveitam o fato de ser uma cidade com uma topografia bastante favorável e optam por uma forma mais econômica de transporte.

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  8. Carro novo ainda é luxo, e mesmo uma lata velha ainda serve para ostentar em alguns lugares mais pobres. Popularização do automóvel não existe, o que tem aos montes mesmo é moto, esse sim é o "carro" do povão, mais fácil de manter e na prática é isso o que importa.

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