sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Triciclos: uma alternativa para aliviar o pesado trânsito urbano quase ignorada

Uma reclamação comum a moradores de várias cidades brasileiras, desde metrópoles conhecidas mundialmente como São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre e Manaus, passando por cidades médias como Florianópolis, Itajaí e Pelotas, até cidades pequenas interioranas, é o trânsito excessivamente congestionado. Por mais que eu goste de carros, não posso negar que há alguns que acabam sendo desnecessários em função do tamanho exagerado e de serem subaproveitados. Isso não significa, entretanto, que eu seja a favor da proibição aos carros, que todos andassem de ônibus, metrô ou bicicleta (embora eu seja a favor de uma ampliação da malha cicloviária tanto para proteger alguns ciclistas de atropelamentos quanto pedestres de alguns "bicicleteiros" mais desatentos e manter a fúria de alguns dos que se dizem "cicloativistas" o mais longe possível dos veículos motorizados), mas é visível que em alguns casos há usuários que são "empurrados" para veículos maiores do que seria realmente necessário tanto por falta de incentivos para o uso de modelos adequados às reais necessidades (às vezes a falta de um motor a diesel por causa de uma restrição jurídica absurda e obsoleta leva um possível usuário de uma pickup compacta a um modelo médio), por pressão social (a questão do status de alguns modelos associada ao fato do consumidor brasileiro ser mais apegado tanto ao tamanho em detrimento da oferta de equipamentos quanto à cilindrada em relação à tecnologia agregada num motor, recentemente desafiada pela Peugeot oferecendo um motor 1.6 com turbo e intercooler onde normalmente se encontraria um 2.0 aspirado) ou por causa de uma sensação de superioridade no trânsito a bordo de alguns modelos (não é raro ver "madames" desfilando em sport-utilities apenas para levar os filhos à escola parando em fila dupla ou procurar vaga em estacionamento de shopping e às vezes ainda enchem a boca para dizer que apreciam enxergar o trânsito "por cima").

Não é raro ver pequenos utilitários antigos como Fiat Fiorino, Ford Pampa e VW Saveiro em péssimo estado de conservação transportando cargas. Certamente os proprietários dos veículos poderiam se beneficiar do uso de um triciclo que geralmente pesa vazio menos da metade dos modelos convencionais, ocupa menos espaço físico nas ruas e em alguns casos conserva a mesma capacidade de carga ou a diferença é mínima. E o custo de manutenção e operação mais baixos, apesar do seguro obrigatório ser mais alto para os triciclos por serem considerados motocicletas, ainda que por conta da estabilidade direcional superior a estas acabem menos sujeitos a acidentes como os que constantemente vitimam e afastam do trabalho milhares de motoboys anualmente.



Não só para transportadores autônomos tais benefícios seriam apreciados, pois empresas de diversos tamanhos acabariam aderindo a tais veículos. Cortariam gastos com manutenção dos veículos, desde pneus eventualmente armazenados de forma inadequada antes de serem reciclados a gastos com combustível, consequentemente reduzindo a emissão de gases poluentes e a proliferação do mosquito da dengue através das águas pluviais empoçadas dentro de pneus velhos. Ainda, a agilidade de um triciclo em locais com pouco espaço para manobrar, como diversas ruas estreitas de mão única, seria benéfica ao trânsito como um todo por reduzir a eventual formação de congestionamentos.


Os mesmos congestionamentos e dificuldade de encontrar espaços para estacionar e manobrar que direcionam alguns consumidores a modelos como o Smart seriam um atrativo a mais para triciclos, ao ser levada em conta a questão do transporte individual. Com o preço absurdo que se cobra no mercado brasileiro pelo carrinho francês devido aos altos impostos de importação é possível comprar uma caminhonete média com motor flex, que por conta das condições socioeconômicas acaba sendo preferida tanto por uma sensação de segurança a bordo de um veículo maior (como se isso significasse que as áreas de absorção de impacto fossem melhor projetadas em função do tamanho) quanto pela maioria dos consumidores priorizar um único veículo que pudesse atender a diversas necessidades ao invés de adquirir modelos específicos a cada necessidade, fazendo com que tais veículos compactos sejam considerados "excentricidades" ou simples "brinquedinhos de filha de dono de Mercedes" como dizia o engenheiro Dr. João Augusto do Amaral Gurgel. Desde triciclos brasileiros para transporte de cargas leves improvisados a partir de motocicletas modificadas artesanalmente até modelos como o Piaggio Ape e diversos similares de fabricação indiana (e mais recentemente chinesa), não é difícil encontrar modelos com comprimento menor que os 2,69m e largura inferior a 1,56m do Smart com uma melhor otimização do espaço.




Apesar do breve momento em que os triciclos tiveram alguma visibilidade junto ao público brasileiro por causa de uma obra de teledramaturgia ambientada na Índia que fez grande sucesso e lançou alguns bordões bizarros e fez o povão correr atrás do dicionário para ver o que significava "auspicioso", o uso de triciclos no transporte de passageiros continua sendo considerado uma mera curiosidade, ou excentricidade indiana. Entretanto, não seria tão ilógico considerar as aplicações práticas de triciclos localmente para transporte de passageiros, tanto no uso particular (há quem tenha medo de motos mas considere um típico carro compacto com motor 1.0 desnecessário e ocasionalmente até grande demais, principalmente considerando as diminutas vagas nas garagens de edifícios residenciais e comerciais) quanto para táxi, considerando a agilidade e o baixo custo operacional, especialmente em algumas localidades onde não há rede de abastecimento de gás natural, incluindo cidades com mais de 300.000 habitantes. Alguns condutores com medo da violência urbana ainda apreciariam o fato da maioria dos triciclos ter o cockpit montado em uma posição que não possibilitaria a presença de passageiros tão próximos, até facilitando a instalação de um anteparo de proteção como os que se usa nos táxis londrinos, novaiorquinos ou mesmo em Montevideo. Vale destacar que até em países hoje bastante desenvolvidos como Itália e Japão chegaram a ser usados como táxi, pois economia era palavra de ordem para reconstruir a destruição por causa da II Guerra Mundial, e em alguns locais turísticos italianos ainda são usados com intensidade.



Uma aplicação que alguns considerariam totalmente inviável seria o uso de triciclos como ambulância. Sinceramente, eu mesmo me impressionei com a criatividade que levou alguns desses veículos a servirem para tal função na Índia. Por lá até pode não ser tão inadequado devido às condições das ruas, eventualmente piores que as brasileiras, inviabilizarem altas velocidades, mas o desempenho limitado da maioria dos triciclos utilitários que na quase totalidade mal chegam a 60km/h (as "piores" ambulâncias brasileiras que eu já vi alcançavam no mínimo 80km/h) dificultaria a inserção dos mesmos nesse segmento de mercado. Vale destacar, entretanto, que alguns contam com suspensões independentes nas 3 rodas proporcionando um certo conforto em comparação com os arcaicos eixos rígidos com feixes de molas constantemente usados na suspensão traseira das ambulâncias brasileiras...


Algo que eu costumo dizer é que as frotas policiais acabam refletindo a situação econômica e geográfica dos locais. Se por um lado algumas cidades brasileiras são tão mal equipadas em termos de viaturas de polícia que um único modelo precisa ser como um "canivete suíço" e executar todas as funções, desde procedimentos administrativos passando por patrulhamento até transporte de detentos, corporações policiais de países desenvolvidos mesmo em cidades pequenas acabam contando com veículos mais apropriados para algumas funções específicas, de superesportivos para perseguições em alta velocidade até triciclos que possam ser adaptados para funções como procedimentos administrativos, apoio logístico e patrulhamento de rotina em áreas com alto fluxo de pedestres (mesmo perfil de algumas ruas de Porto Alegre e Florianópolis, ou parques e praças) ou onde as condições geográficas beneficiem tais veículos. Vale destacar o caso da Itália e do Japão novamente, que em algumas regiões apresentam uma topografia bastante irregular como os morros do Rio de Janeiro cheios de becos e vielas estreitas o bastante para dificultar a circulação de viaturas de polícia mais convencionais (manobrar o Caveirão, então, nem se fala na perícia que é exigida do piloto da máquina). Pensando dessa forma eu não consideraria tão inapropriado a presença de pelo menos um triciclo em cada UPP carioca...


Outra situação onde a agilidade dos triciclos poderia ser um grande benefício é na manutenção de serviços como telefonia, TV por assinatura, instalações elétricas e hidráulicas. Não é incomum encontrar hatches 1.0 normais com alguns suportes de teto para escadas e prateleiras improvisadas desde o pequeno compartimento de bagagens até onde seria o banco traseiro sendo usados para a assistência técnica, quando eventualmente um triciclo com os compartimentos de carga devidamente projetados para armazenar os equipamentos poderia proporcionar uma segurança adicional, enquanto a agilidade dos veículos permitiria uma maior rapidez para atender aos usuários em ambientes urbanos com trânsito tão caótico onde encontrar um espaço para transitar e outro para estacionar acaba sendo mais decisivo que uma velocidade elevada. Até em algumas localidades rurais o uso de triciclos poderia ser considerado adequado, tanto por conta do custo inferior quanto do menor impacto ambiental de um veículo significativamente mais leve e econômico que algum utilitário de 4 rodas.

Apesar do aparente desinteresse em promover tais veículos, enquanto a economia permanecer eternamente "em desenvolvimento" e o trânsito sempre bagunçado, os triciclos são uma opção bastante apropriada ao mercado brasileiro...

17 comentários:

  1. É mesmo complicado aquelas coroa trancando o tranzito em fila dupla naquelas banheironas. Va la que o negocio delas é se aparecer de Mercedes, pra isso ja é suficiente o tal do classe A.

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  2. Bom mesmo, mas uns triciclos na polícia eu tenho minhas dúvidas se daria certo. Mas esse de manutenção ajudaria bastante.

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  3. esses triciclos era um jeito bom de acabar com aquelas motos taxi que não tem conforto nenhum e nem seguransa

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  4. Me gusta ese triciclo con frontal tipo Harley. Y ese taxi con cabina se ve mejor que los tricycles que se ve por las calles de Manila con los sidecars.

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  5. Pois é!

    a estupidez alheia é algo lastimável!

    Quanto ao teu post, tricíclos tem estética, mas creio que perde um pouco de direção/
    controle.

    abraço!

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  6. aff magina a pulicia correndo atraz de ladrão nessas coisa q bisarro mas pra parque pode ser bom

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  7. Mania de brasileiro se achar europeu, por isso não tem tanta aceitação do grande público os triciclos. É tanta essa mania que não é difícil achar playboy colocando o escudo da Opel na grade dos Chevrolets nacionais mas já chegam num posto e vão mandando completar com alcool.

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  8. Anteriormente à inserção de Portugal na CEE era mais frequente ver tricarros às ruas. Hoje o que há são automóveis Fiat Grande Punto, Opel Corsa e pequenas carrinhas a transportar pequenas cargas ligeiras. Um veículo mais ligeiro como um tricarro cumpre o mesmo serviço com um custo menor.

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  9. Não é difícil ver veículos grandes demais para as ruas dos centros antigos onde antes só passava pedestre, cavalo, carroça e bicicleta.

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  10. ambulancia triciclo ficaria boa msm no samu pq ja vai entrando em qqr brecha e n fica fasendo fumassa preta como as vans a dizel que o samu uza hj

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  11. Quem sabe se não seria bom esse triciclo taxi. Se baixar o preço ou pelo menos não continuar subindo tanto ja ajuda.

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  12. Una buena solucion a quien le necesita la capacidad de carga de un automóvil pequeño pero con la frugalidad de las motocicletas. Es una lástima que los triciclos no cuenten hoy con la mejor reputacion debido a toda esa cultura automovilística y la idea acerca de los vehículos de 3 ruedas como si fueran solo un cambalacho qualquiera y no una opcion efectiva de movilidad con reducido costo operacional.

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  13. Se não tivesse tanto preconceito contra os triciclos seria uma boa oportunidade de descentralizar as operações do SAMU, com um modelo padronizado para atender ao serviço a partir de bases comunitárias em algumas periferias. Até postinho de saúde de bairro poderia ter pelo menos uma ambulância sempre à disposição.

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  14. É mesmo, com tanto congestionamento se pelo menos diminuísse o tamanho de alguns veículos e melhorasse a capacidade de manobrar nos cantos mais apertados já dava uma aliviada boa. E se a renovação de frota realmente sair do papel e junto vier uma legislação beneficiando os triciclos eu não duvido que por exemplo uns 30% dos que hoje tem carro em São Paulo poderiam trocar por um triciclo e depois não sentiriam a menor falta de um carro normal.

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  15. Se aparecesse algum modelo de triciclo que pudesse manter uma velocidade compatível com o tráfego numa rodovia já atenderia bem a todas as minhas necessidades e ainda seria melhor do ponto de vista financeiro. Transporte é caro demais nesse país.

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  16. Se for mesmo agilizar o atendimento médico de urgência sem comprometer o conforto e a segurança do paciente eu sou favorável a essa proposta de usar ambulâncias triciclo. E se forem mesmo mais baratas que um furgão já sobra para investir numa frota maior para atender com mais rapidez em mais lugares.

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  17. As ambulâncias já nem tem muita pista para correr mesmo, e manobrar dentro da cidade é um inferno mesmo com os motoristas tentando jogar o carro na calçada para desobstruir o caminho, então a facilidade que um triciclo dá para se esquivar em brechas mais apertadas agiliza mais o socorro mesmo. Mas em vez de montar com CG tinha que ser no mínimo o motor da CB 300.

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