quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Seria uma van melhor que uma pick-up ou um SUV?

Muito já foi dito sobre o brasileiro ser "apaixonado por carro", mas até que ponto isso seria verdade? Ou a escolha de qual veículo comprar seria mais motivada por um desejo de "ostentar"? De certa forma, a popularidade das pick-ups médias e SUVs como um novo símbolo de status em detrimento das características utilitárias me leva a apostar que o exibicionismo vem prevalecendo. Afinal, não faz muito sentido deixar-se seduzir pelos argumentos publicitários que visam motivar um consumidor desavisado a optar por um veículo que vá na maior parte dos casos ter menos funcionalidades que uma van apesar da margem de lucro maior para o fabricante.

A bem da verdade, em tempos que a tração 4X4 ainda não era tão difundida, a disposição de motor e tração traseiros beneficiou a Kombi diante de utilitários com uma concepção mais americanizada com motor dianteiro e tração traseira como a Chevrolet Veraneio até mais do que a racionalização de espaço proporcionada pela cabine avançada. Essa configuração proporcionava um melhor contato das rodas motrizes com o solo, favorecendo a mobilidade mesmo em vias não-pavimentadas em diferentes condições de carga. Em um mercado com poucas opções, ainda mais limitadas em função de dificuldades que praticamente eliminaram as importações entre '76 e '90, era até fácil convencer o consumidor a priorizar a função sobre a forma, e assim praticamente estabeleceu-se uma reserva de mercado para a Kombi.


Podem ser apontados muitos argumentos a favor de uma van em detrimento de outros tipos de veículo utilitário, sendo o mais notável a versatilidade de um compartimento protegido das intempéries que pode ser configurado para carga, passageiros ou uso misto sem maiores dificuldades nem tanto compromisso como acontece com as pick-ups em função das variações de cabine simples, estendida ou dupla. De ferramentas e outros suprimentos para o trabalho até a família ou grupos de amigos, o maior volume interno também sobressai como uma vantagem em comparação aos sport-utilities que frequentemente servem basicamente para carregar o ego inflado de aspirantes a aventureiro que na verdade não costumam encarar obstáculos mais extremos que um quebra-molas ou uma rampa de acesso ao estacionamento do shopping mais próximo. Também é conveniente destacar uma característica bastante comum nas vans asiáticas com posto de condução avançado sobre o eixo dianteiro, como a japonesa Mitsubishi L300, que é a distância entre-eixos mais curta que a de um veículo com comprimento semelhante e cabine recuada, proporcionando um diâmetro de giro menor e mais favorável à manobrabilidade em espaços exíguos tão comuns num ambiente urbano. A largura normalmente na faixa de 1,70m e o comprimento dificilmente ultrapassando 4,70m, medidas que as colocam numa alíquota mais favorável das taxas de licenciamento no mercado doméstico japonês (JDM - Japanese Domestic Market), também contribuem para a facilidade de condução.


Tantas qualidades, no entanto, parecem não ser mais suficientes para atrair usuários particulares como ocorria até a década de '90 com o auge da popularidade das vans asiáticas que seguiu a reabertura das importações. Equipamentos como ar condicionado, direção hidráulica, câmbio de 5 marchas e motor Diesel serviram para desafiar a hegemonia da Kombi e agitar o segmento, e até forçou a Volkswagen a finalmente oferecer porta lateral corrediça a partir de '97. No entanto, alguns fatores como a liberação do uso do gás natural em veículos particulares em '96, as vantagens do motor e tração traseiros no uso fora-de-estrada, e a disponibilidade de versões com 9 lugares que podem ser conduzidas com habilitação para automóveis garantiram uma sobrevida à Kombi, enquanto outros como a instabilidade cambial que acompanhou a crise dos tigres asiáticos no final da década de '90. E assim, modelos tidos como menos obsoletos como a Hyundai H-100 começavam a deixar de ser comercializados no mercado brasileiro por volta de 2005 enquanto a Kombi até 2006 ainda permanecia com o motor boxer refrigerado a ar.

A maior aceitação dos SUVs junto a consumidores com um perfil mais urbano, embora nem sempre explorem a fundo todas as capacidades de incursão fora-de-estrada oferecidas e acabem encarando esse tipo de veículo mais como um símbolo de status para compensar pinto pequeno, não chegaria a constituir um impedimento para que recursos como tração 4X4 e câmbio automático sejam oferecidos também em vans. Tal fenômeno é evidente no Japão e em países onde veículos japoneses usados podem ser desovados importados e licenciados como é o caso do Paraguai. A presença de modelos tão diversos quanto o Toyota Land Cruiser Prado de 2ª geração (J90) e a Toyota Hiace de 4ª geração vindos do Paraguai para o Brasil em temporadas turísticas mostra que nem todos se deixam levar pela exaltação de um espírito de liberdade mais associado à imagem dos SUVs e reconhecem nas vans uma alternativa até mais coerente nesse sentido, não apenas pela facilidade para transportar equipamentos esportivos e material de camping como pela maior habitabilidade tendo em vista que numa van é muito mais fácil acomodar bagagens de um jeito que ainda sobre um cantinho para estender um colchonete e poder dispensar a barraca.
Apesar da possibilidade de compartilhar componentes e conjuntos mecânicos entre plataformas distintas, há algumas questões culturais que podem influenciar a oferta ou ausência de alguns recursos nas vans de acordo com os mercados aos quais estejam destinadas. Por exemplo, o programa de inspeção veicular no Japão (shaken) favorece veículos de carroceria fechada, enquanto nos Estados Unidos o predomínio das pick-ups e SUVs faz com que concentrem uma maior disponibilidade de comodidades e diferentes configurações mecânicas. Assim, por mais que o exemplo da Toyota HiAce tendo acompanhado e às vezes até superado a oferta de motores, câmbios e sistemas de tração da pick-up HiLux com a qual guarda algumas similaridades técnicas pareça óbvio, convém recordar o caso das vans Ford Econoline/E-Series que nunca contaram com tração 4X4 como opcional mesmo apresentando um elevado grau de compartilhamento de componentes da plataforma com as pick-ups F-Series que poderia até facilitar o desenvolvimento e implementação dessa solução de forma semelhante ao que empresas como a Quigley faziam usando uma grande quantidade de peças originais de fábrica.

Enfim, por mais que às vezes um veículo seja apontado como extensão da personalidade do dono, há circunstâncias nas quais isso não ocorre de uma forma tão incontestável. Seja pelo poder de persuasão dos publicitários ou pela absoluta falta de opção, de fato uma parte considerável dos atuais usuários de pick-ups e SUVs estariam muito melhor servidos com uma van.

4 comentários:

  1. Essas vans da Ford, as Econoline, são as mais vendidas no mercado. São ultra práticas e espaçosas, com diversas configurações, de comprimento, entre-eixo, portas e janelas. São veículos 100% comerciais, com opção de motores V6 e V8 a gasolina. Práticos e adorados pelos americanos !

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    1. Agora segundo me consta só estão saindo nas versões cutaway (chassi e cabine) ou chassi sem cabine para encarroçamentos especializados e com motor V8 ou V10, sendo substituídas gradualmente pela Transit.

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  2. É a coisa mais difícil achar uma picape no Japão, mas as vans estão mesmo em todo lugar. Além da carga ficar mais protegida em lugares onde cai neve, também é mais barato de licenciar e a inspeção veicular é feita de 2 em 2 anos ao invés de anualmente como para as picapes de carroceria aberta e caminhões.

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  3. Nem vale tanto a pena um truck no Japão mesmo, apesar de não ter roubo ou furto na mesma proporção que no Brasil é sempre melhor levar as coisas num compartimento fechado mais protegido. Tem que ver depois a incomodação que é ficar limpando neve.

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