terça-feira, 16 de novembro de 2010

Triciclos: algumas vantagens se mostram pouco exploradas no mercado brasileiro

Embora o carro ainda seja visto como um símbolo de status, ainda que seja um "sucatão" em estado deplorável de manutenção, os custos tanto de aquisição quanto de manutenção elevado acaba levando alguns consumidores a abdicarem dessa falsa sensação de superioridade no trânsito para recorrer a motocicletas como opção para atender às necessidades de transporte sem depender tanto da ineficiência e desconforto dos serviços públicos. Consequentemente, não é raro ver motociclistas inexperientes sofrerem acidentes devido ao excesso de confiança ou por desconhecimento sobre as vulnerabilidades de tais veículos. Fora isso, grande parte das vias não estão adequadas à circulação segura de motocicletas, tanto por detalhes como a altura de guard-rails até a sinalização no asfalto: não é difícil encontrar faixas de sinalização simplesmente cobertas com tinta preta quando há alguma mudança no fluxo, quando o correto seria remover tais faixas com uso de um maçarico para manter o correto nível de aderência da pavimentação aos pneus. Acaba aumentando o risco de acidentes principalmente em períodos chuvosos, quando a tinta molhada fica lisa como sabão, e uma derrapagem de moto tem consequências mais sérias devido ao equilíbrio precário mantido na condução de tal tipo de veículo, que é um verdadeiro desafio às leis da gravidade.
Fora isso, ainda há a grande quantidade de motocicletas adaptadas para o transporte de cargas, eventualmente não tão leves quanto uma pizza ou um punhado de cartas. Há casos em que as adaptações beiram o absurdo como caixas do tamanho de um pequeno armário doméstico usadas por algumas lavanderias e tinturarias, ou os precários racks usados para carregar garrafões de água ou botijões de gás de cozinha (positivamente já proibidos em algumas localidades), aumentando ainda mais o centro de gravidade e ainda potencializando os efeitos de ventos laterais "empurrando" a moto ao chão e promovendo o desgaste irregular dos pneus.
Recentemente o mercado brasileiro acabou despertando para vantagens de triciclos conciliando a capacidade de carga de carros convencionais com custo operacional próximo ao de motocicletas e uma estabilidade direcional superior a estas últimas. Entretanto, tais veículos tem sido apresentados apenas como alternativa ao transporte de cargas, e as utilidade no transporte de passageiros vem sendo ignorada tanto por consumidores quanto por fabricantes e distribuidores dos triciclos. Em alguns mercados emergentes ainda há um espaço significativo para esse segmento, sobretudo em locais como Índia e China.
Mas até países atualmente considerados desenvolvidos como Itália e Japão recorreram ao baixo custo proporcionado pelo uso de triciclos no transporte de passageiros em períodos de recessão como os primeiros anos posteriores à II Guerra Mundial. Não era incomum achar algumas carrocerias especiais montadas sobre o Piaggio Ape para servir a tal função, embora versões para transporte de passageiros fossem regularmente oferecidas (mas não com um nível de conforto tão próximo ao de um automóvel por ainda serem abertas).
Embora o uso como táxi acabe sendo atualmente deixado de lado (excetuando alguns locais turísticos), apesar do enquadramento de triciclos como motocicletas os possibilitar menos restrições à circulação em alguns locais por serem considerados mais ecológicos e a manobrabilidade em espaços reduzidos tão comuns em grandes centros europeus (tais espaços chegam a ser comparáveis aos becos e vielas tão comuns em periferias brasileiras, onde as condições geográficas levaram até ao desenvolvimento do serviço de mototáxis, que embora ainda seja considerado irregular chegou a ser usado até por forças policiais durante uma operação numa favela carioca, numa situação que pode ser considerada análoga à Batalha de La Marne na I Guerra Mundial quando soldados franceses chegaram numa frota de táxis ao front), o sistema de habilitação escalonado adotado pelos países desse continente (até já houve um sistema semelhante para os motociclistas brasileiros, que eu acredito ter sido abolido apenas com o Código Nacional de Trânsito de '98) é favorável à aplicação de triciclos no transporte particular, sobretudo por jovens que queiram algo com mais conforto e segurança que os ciclomotores de 50cc (embora sejam enquadrados como tal) mas a idade não permita a condução de carros convencionais, e não se interessem pelos até bastante caros microcarros (conhecidos em Portugal como "quadriciclos qualificados" e com as mesmas restrições à velocidade máxima nas quais são enquadrados os ciclomotores). Talvez um motivo que desperte o interesse de alguns dos usuários desses triciclos seja o fato de vários "venenos" que permitiriam aos ciclomotores atingirem velocidades menos restritas serem igualmente aplicáveis aos triciclos em função das similaridades mecânicas (ainda que acabem se tornando ilegais quando os veículos continuam a ser conduzidos por usuários que se enquadrem na classe de habilitação às quais originalmente eram destinados), enquanto os microcarros geralmente são equipados com austeros motores estacionários/industriais com pouca oferta de recursos para "fuçar".
É praticamente impossível que as leis brasileiras voltem a cogitar o uso de ciclomotores por menores sem habilitação a partir dos 14 anos como em países europeus, apesar da Convenção de Viena prever tal benefício aos jovens, mas certamente poderia tornar o mercado local mais receptivo ao uso de triciclos no transporte privado de passageiros. Entretanto, devido às características da economia local ainda haveria bastante espaço para modelos maiores, e mesmo assim as vantagens não ficariam restritas apenas a uma redução do subaproveitamento de veículos maiores que ocupariam mais espaço nas vias, incluiriam a redução nos níveis de poluição do ar (mesmo um triciclo de aproximadamente 250cc consome menos combustível e emite menos gases poluentes que um carro popular de até 1000cc ou então os "sucatões") e o descarte inadequado de pneus (a ser reduzido entre 20 e 25% em alguns casos específicos).
A existência de modelos com cabine fechada, mais confortável em dias chuvosos ou épocas de frio e mais segura no ambiente urbano com linhas de pipa com cerol que ainda representam uma ameaça aos motociclistas e alguns objetos que possam ser arremessados em direção ao condutor de forma intencional ou não, pode acabar facilitando a atração de usuários de motocicletas para os triciclos, assim como usuários de carros convencionais que acabam aderindo aos mesmos apenas por falta de uma opção mais econômica mas não apreciam motocicletas (ou são impedidos de conduzir uma por conta de alguma deficiência física - eu até conheci alguns deficientes físicos que se tornaram usuários de motocicletas transformadas em triciclo no litoral sul catarinense).

De fato, as condições econômicas e geográficas brasileiras são bastante favoráveis aos triciclos, embora ainda não sejam vistos com tanta seriedade apesar das vantagens em algumas aplicações terem sido comprovadas na prática.

12 comentários:

  1. Eses triciclos son muy buenos, se ve que en India le usan a triciclos para todo lo que acá en las Filipinas lo hacen con los jeepneys. Y lo que conocimos por triciclo son solo motos con sidecar.

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  2. Triciclo de taxi seria intereçante em cidades turísticas mais aquele fusca de 4 portas da foto de cima merecia ser reformado.

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  3. Francisco Augusto4 de abril de 2011 02:20

    Triciclos constituiriam uma alternativa ideal de mobilidade nos centros urbanos. Eu lembro que já tem mais de 10 anos que se falava em renovação da frota nacional mas esses triciclos que poderiam tirar de circulação várias latas velhas caindo aos pedaços nunca são mostrados como uma alternativa séria.

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  4. Triciclo não faz sucesso pq se não for classificado como veículo de passeio e ficar marcado como "o carro do pobre" não vai ter quem queira comprar para ir na praia com a família.

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  5. No es solo en Brazil que los triciclos son una buena opcion, creo que mismo en los Estados Unidos hay gente que lo iba a querer un triciclo, sobretodo ahora que los precios de la gasolina estan cada vez peores.

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  6. Convencer o povão a usar triciclo no lugar do carro ainda seria difícil, se nem aquela novela das 8 ambientada na Índia fez eles terem tanta popularidade fica complicado.

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  7. Eu já vi um monte de carros velhos bem mais precários que esse da foto que abre o artigo rodando em São Paulo e na região metropolitana. Mas depois do absurdo daquele vídeo da Record que mostra um Corcel rodando só com 3 pneus eu comecei a ver que esses triciclos não são só uma esquisitice e realmente podem servir para alguma coisa.

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  8. Quase não se vê triciclo que não seja daqueles abertos de passeio, mas assim só quem gosta de moto ia querer um. Esses fechados podem ser bons até em São Paulo se for mesmo mais fácil de estacionar e proteger da linha com cerol e da chuva. Mas bem lembrado o problema do cerol, a polícia não tem como fiscalizar sempre em todo lugar e sempre tem algum pivete com linha com cerol em qualquer beira de rodovia.

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  9. Encontrei um triciclo com cabine fechada num ferro-velho a uns meses atrás, desses com motor de vespa. Sei lá, achei muito pequeno, mas não parece que seria ruim até de usar no lugar dum carro popular.

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    1. No caso dos modelos com motor de Vespa, não é tão difícil fuçar o motor original para que o veículo tenha condições de acompanhar o tráfego de forma segura, ou mesmo trocar por algum motor mais moderno para facilitar a reposição de peças ou caso prefira evitar os riscos associados a uma preparação boca-de-porco.

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  10. Parando para pensar bem e colocando na ponta do lápis os prós e os contras, faz todo sentido que os triciclos venham a ser considerados uma alternativa válida para amenizar alguns problemas da mobilidade urbana brasileira. Com o tamanho mais compacto a manobrabilidade fica favorecida, e com o footprint menor dá para otimizar melhor o espaço das vagas na rua e até diminuir o volume dos engarrafamentos, fora que a quantidade menor de peças de reposição por diminuir o custo de manutenções preventivas até serve como incentivo para que se tome o devido cuidado com a segurança do veículo ao invés de ficar negligenciando até a hora que partes podres de ferrugem fiquem literalmente caindo aos pedaços. Cheguei a ver num site de comércio exterior alguns anúncios de uns triciclos fechados chineses com motor de moto de 250cc e tamanho total menor que um Ford Ka mas com espaço interno maior, e design até parecido com o daquelas minivans Chana, e é de se lamentar que não sejam oferecidos no Brasil.

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    1. Exatamente. Só o que realmente atrapalha uma maior inserção dos triciclos no mercado nacional são politicagens obscuras, e não seria nem justo atribuir uma culpa exclusiva à indústria automobilística instalada localmente, mas ao governo que não promove nenhum tipo de incentivo a veículos mais racionais.

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