segunda-feira, 12 de maio de 2014

Uma reflexão sobre veículos off-road baseados no layout mecânico do Fusca

Notável como um dos carros "populares" mais marcantes do Século XX, o clássico Volkswagen Sedan Typ1 ("Fusca" no Brasil ou "Carocha" em Portugal) já tinha originalmente uma razoável capacidade de incursão por terrenos não-pavimentados que se mostrava particularmente útil em zonas rurais do interior da Alemanha, favorecido pela configuração de motor e tração traseiros. Tamanha era a aptidão do Fusca a cenários off-road que, após ter servido como base para o Kubelwagen da II Guerra Mundial, também passou a despertar algum interesse no mercado civil, e assim surgiram os "baja bugs" originalmente destinados ao uso em competições nos desertos da Baja California mas atualmente populares também no off-road recreacional numa ampla variedade de terrenos.
Embora um veículo que na essência segue basicamente como um Fusca modificado possa inicialmente não inspirar todo aquele imaginário constantemente associado a utilitários com tração nas 4 rodas, principalmente ao Jeep norte-americano, convém não subestimar...
O glorioso Jeep Willys MB foi um projeto até certo ponto elaborado de forma emergencial, e isso acabou se refletindo no desempenho. O peso em ordem de marcha na faixa de 1100kg pode não impressionar, mas já ultrapassou um limite de 725kg inicialmente previsto. O sistema de tração nas 4 rodas, embora tenha seus inegáveis méritos no tocante à mobilidade em terrenos severos, além de influir no peso, agregava mais atritos internos diminuindo a eficiência do conjunto de transmissão. Mesmo que na época não houvesse toda a pressão por metas de redução de emissões, um consumo de combustível mais contido traria vantagens bastante desejáveis ao processo logístico de suprimentos de combate...

A suspensão por eixos rígidos com feixes de molas semi-elípticas e os assentos com uma ergonomia precária do Willys passaram a ser alvo de críticas nas aplicações civis depois da guerra, provocando um desgaste físico mais intenso dos operadores, e nesse contexto o layout do Fusca com suspensão independente nas 4 rodas por barras de torção na frente e semi-eixos oscilantes com molas helicoidais atrás trazia uma notável melhoria no conforto. Cabe salientar ainda que um Fusca normal costuma pesar em torno de 800kg, num baja é possível até aliviar um pouco devido ao vasto uso de peças em fibra de vidro. Com referência ao impacto ambiental do uso de veículos motorizados em incursões fora-de-estrada, um aspecto interessante a se destacar é a menor compactação do solo proporcionada pelo peso mais contido num baja em comparação a um utilitário de concepção mecânica mais pesada...

No mercado brasileiro tiveram bastante sucesso os Gurgel série Xavante, como o X-12, introduzidos na década de '70 quando as opções eram bem mais limitadas, e os poucos 4X4 disponíveis regularmente eram o Jeep Willys já produzido pela Ford e o Toyota Bandeirante. Se parecia muito pretensioso tentar disputar mercado com tais modelos usando apenas o austero conjunto mecânico da Volkswagen, os pequenos Gurgel tinham como vantagens a leveza e a ergonomia, contando até mesmo com assentos anatômicos co-projetados por um ortopedista. Para a Ford seria necessário produzir o Jeep num volume mensal mínimo de 300 unidades para garantir a rentabilidade dessa operação, mas num dado momento a competição com o Gurgel, mais econômico e de fácil manutenção, levou a Ford a desistir do Jeep no Brasil em '83.
Ainda que a tração nas 4 rodas pudesse fazer falta ao Gurgel em alguns momentos mais extremos, um guincho mecânico com 25 metros de cabo (opcional) e um sistema de frenagem seletiva das rodas traseiras (anunciado como Selectraction) destinado a emular o efeito de um diferencial blocante ao transferir manualmente uma maior proporção do torque para a roda traseira que estivesse em contato com uma porção mais firme do terreno já se mostravam providenciais na maior parte das situações enfrentadas pelos off-roaders brasileiros tanto a trabalho quanto no lazer.

Vale recordar que a concepção básica da série Xavante durou até '95 nos últimos momentos da Gurgel Motores S.A. com o modelo Tocantins, já enfrentando a concorrência de utilitários com tração nas 4 rodas de concepção mais moderna como o Suzuki Vitara.

Outro tipo de veículo off-road baseado no Fusca que também conquistou uma vasta legião de entusiastas são as chamadas "gaiolas", caracterizadas pela estrutura tubular e cabine normalmente mais aberta. Embora muitas acabem recorrendo a outros motores que não o tradicional "boxer" refrigerado a ar, permanecem o motor e tração traseiros. Originalmente desenvolvidas por surfistas californianos para ir à praia, atualmente são mais populares até mesmo em trilhas pesadas, onde a agilidade proporcionada pelo peso até mais contido que num Fusca se mostra favorável à transposição dos obstáculos. Porém, devido ao custo e à burocracia para regularizar um veículo de fabricação artesanal, é um tanto incomum se deparar com uma "gaiola" em ambiente urbano, portanto isso acaba fazendo com que não tenham tanto apelo junto ao grande público, que tende a dar preferência a veículos que não tenham o uso tão restrito.

De um modo geral, por mais que atualmente sejam um tanto subestimados, é importante frisar que os veículos off-road baseados no layout mecânico do Fusca costumam apresentar capacidades de incursão mais dignas que as de muitos soft-roaders baseados em carros "populares" mais modernos, além da relação custo/benefício favorável mesmo diante de concorrentes que de algum modo possam ser reputados tecnicamente superiores como não deixa de ser o caso do Jeep (considerando também reinterpretações do velho Willys como o atual Wrangler)...

3 comentários:

  1. Meu pai é um fã do Amaral Gurgel, mas daqueles que fica feroz quando falam mal de Gurgel mesmo.

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  2. Eu tenho um baja que eu uso só em trilha mesmo já que o meu eu não emplaquei, e é guerreiro o carrinho. Já até reboquei um jipe com ele, mas o meu tem motor de Passat.

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  3. até que são legais mesmo esses fuscas modificados mas eu continuo preferindo jipe

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