terça-feira, 11 de outubro de 2011

Tração traseira: vale a pena voltar?

Uma característica que foi se perdendo na maioria dos automóveis, a tração traseira, ainda hoje tem quem a defenda com significativo entusiasmo. Mesmo que hoje constantemente seja citada como "arcaica", tem características bastante apreciadas por entusiastas de uma direção mais "esportiva" ou por facilitar um melhor acerto da direção, pois a ausência de semi-eixos de tração ocupando espaço no eixo dianteiro fica mais fácil liberar espaço para as rodas esterçarem, reduzindo o raio de giro e favorecendo a manobrabilidade em espaços confinados. Fora isso, nesses tempos de preocupação com o consumo e as emissões ao se levar em conta a transferência de peso para a traseira durante a aceleração faz com que modelos de tração traseira sejam favorecidos nas arrancadas devido a um aumento na aderência das rodas motrizes. Vale destacar que o momento em que o veículo mais demanda energia é enquanto sai da imobilidade...
Tal característica foi por bastante tempo adotada como padrão pela Volkswagen, que a associava à montagem do motor na traseira, favorecendo a concentração de peso sobre o eixo motriz e deixando a direção mais leve, facilitando ainda mais as manobras. E poderia até ser aproveitado para favorecer a aerodinâmica, devido à maior liberdade em se elaborar uma dianteira com linhas mais fluidas. Não é à toa que ainda há uma grande quantidade de modelos superesportivos com motor traseiro...

Enquanto isso, alguns segmentos que particularmente seriam beneficiados pela tração traseira acabam não tendo tal característica aplicada. Um bom exemplo está nos carros populares, com motores de cortador de grama baixa cilindrada às vezes subdimensionados para o tamanho e peso da carroceria. E apesar da "receita de bolo" que se tornou padrão na indústria automobilística, com motor e tração dianteiros, alguns dos motores acabam tendo um volume tão reduzido que viabiliza retomar o uso de motor e tração traseira sem sacrificar o espaço de passageiros na cabine. Um bom exemplo é a já classica Volkswagen Brasília, que apesar te ter sido classificada como uma station-wagon pode ser considerada um hatchback...
Apesar de sacrificar o espaço para bagagens junto à cabine, ainda mais por usar um ventilador alto para refrigerar o motor ao invés do sistema axial usado na Variant e no TL, compensava com um pequeno bagageiro frontal, que poderia ficar mais amplo caso a suspensão McPherson da Variant II também fosse usada na Brasília, melhor até do que o bagageiro interno caso o hatch tivesse motor dianteiro. Vale destacar que com o motor traseiro se utiliza uma tubulação de escapamento menor e, por conseguinte, mais barata. Não é de se estranhar que modelos como o Tata Nano venham retomando essa tradiçao...

Outro caso curioso é o do FIAT 500, que numa versão antiga usava motor e tração traseiros mas na releitura moderna adotou motor e tração dianteiros. Considerando o atual empenho da FIAT no downsizing, não seria difícil encaixar um motorzinho de dentista "deitado" atrás do parachoque traseiro sem ocupar tanto espaço do diminuto bagageiro nem sacrificar mais a pequena cabine, apesar do acréscimo na capacidade volumétrica de carga com a conseqüente possibilidade de se montar mais um bagageiro à frente...
Ao se levar em conta que o atual 500 é inspirado num modelo direcionado às estreitas ruas das antigas cidades italianas, um melhor acerto de direção seria ainda mais apreciado...

Outro segmento que seria particularmente beneficiado é o dos híbridos e elétricos puros, nos quais as grandes bancadas de baterias acabam sacrificando significativamente a cabine e a capacidade de carga, e devido à ênfase dada ao uso urbano de tais modelos faria com que os benefícios à manobrabilidade em espaços confinados tivessem ainda mais sentido...

Ainda há o espaço ocupado pelo motor e por um diferencial: no caso específico do Nissan LEAF, se ao invés do motor de máquina de lavar roupas e de um diferencial montados na frente fossem usados hub-motors diretamente conectados às rodas traseiras, além de reduzir as perdas por atrito de um sistema de tração convencional não sacrificaria tanto volume que poderia ser usado para criar um compartimento de bagagens adicional e, eventualmente, trazer um pneu sobressalente - apesar do útil kit de reparo rápido de furos, a pavimentação nas ruas das principais cidades da República das Bananas brasileiras sofre com a péssima manutenção e acaba tendo irregularidades que podem eventualmente provocar rasgos e até inviabilizar uma recauchutagem no pneu danificado, e para poder se deslocar com o mínimo de segurança até um ponto de assistência o estepe acaba sendo de extrema importância...
Considerando os hub-motors, a montagem dos mesmos no eixo traseiro, apesar de aumentar a massa-não suspensa em comparação com um único motor ligado a um diferencial traseiro, geraria uma demanda menor sobre o sistema de direção assistida, que não gastaria tanta energia como se os hub-motors fossem montados nas rodas dianteiras, ou mesmo com um sistema de transmissão tradicional...

Na prática, apesar de não estar recebendo a devida atenção, a tração traseira ainda tem vantagens que poderiam ser melhor aproveitadas pela indústria...

4 comentários:

  1. De fato, o uso de tração traseira em modelos eletricos/hibridos seria a melhor opção, assim como em carros de baixo custo, pois como foi dito acaba-se economizando em peças ao usar o motor inteiro atras, barateando. De toda a forma, carros com tração traseira são uma otima escolha pra boa parte das situações, pena que o mercado acabou o perdendo.

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  2. Nas últimas décadas a tração traseira vem sendo apresentada como uma característica "premium", mais restrita a modelos de categoria superior ou com alguma pretensão esportiva e, no caso da BMW, identidade de marca. Infelizmente apesar da Volkswagen ter ensaiado retomar a tração traseira num segmento mais popular com o Up acabou não o fazendo.

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  3. Uma carruagem puxada por um cavalo não é um veículo de tração dianteira, como se alardeia muito. O cavalo é em si o motor e o veículo, 4X4, aliás. A carruagem é só um reboque, pois a força do cavalo é transmitida directamente ao solo, não às suas rodas.

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  4. Desenterrou, hein... Me fez lembrar agora daquela propaganda da DKW-Vemag esculachando a Volkswagen por "colocar a carroça na frente dos cavalos".

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