quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Carros "velhos": uma verdadeira ameaça?

Um tema propício a discussões acaloradas tanto entre entusiastas declarados dos automóveis quanto outras pessoas que não compartilhem da mesma paixão é a eventual relação entre a idade dos veículos e o impacto ambiental que acabam originando. É muito comum ouvir expressões pejorativas como "lata velha" ou "carroça" sendo usadas para se referir a veículos antigos de forma arrogante e preconceituosa, desconsiderando o estado de manutenção por melhor que seja, apenas por causa da idade avançada de alguns modelos. Ou do projeto como ocorre com a Kombi, por exemplo...
Certo, a boa e velha van de projeto flamenco-alemão está no mercado mundial há mais de 60 anos, e sobrevive basicamente no mercado brasileiro por conta das restrições às importações, mas ainda enfrenta com desenvoltura algumas estradas rurais não-pavimentadas onde concorrentes de projeto mais recente passam com alguma dificuldade...
Considerando o impacto ambiental, vale lembrar que até o final de 2005 a Kombi ainda era oferecida com um motor refrigerado a ar, tendo a vantagem de dispensar o uso de fluido de arrefecimento e conseqüentes dificuldades para reaproveitar a água num processo de reciclagem.
A justificativa para substituição foram normas mais rigorosas de emissões, mas na prática ainda seria economicamente viável promover algumas melhorias no clássico motor boxer refrigerado a ar...

Retomando uma análise mais generalista, outros modelos como o Chevrolet Opala são bons exemplos de veículos antigos que sofrem com o estereótipo de "carro velho". Ainda que não esteja mais nos dias de glória que teve quando era a escolha de políticos influentes e empresários bem-sucedidos, permanece com um nível de conforto compatível com modelos mais recentes.

Um bom exemplo da qualidade do Opala é o uso da versão Caravan como ambulância, apesar da última ter saído da fábrica há 20 anos. Ainda que a altura interna não seja tão favorável à ergonomia nesse tipo de aplicação tão crítica, a confiabilidade do veículo é posta à prova, e o acerto da suspensão acaba sendo melhor que o de pequenos veículos originalmente destinados ao transporte de carga que, ao serem equipados para exercer tal função, não recebem a devida atenção nesse elemento tão importante...

E nas versões equipadas com o austero motor de 4 cilindros, o Opala tem um desempenho honroso e o consumo de combustível não chega a ser tão exagerado, e por incrível que pareça em alguns casos é até melhor que alguns carros menores, mais aerodinâmicos e de projeto mais atual...
Ainda, a concepção mecânica essencialmente "velha" acaba até sendo um tanto "ecologicamente correta". O eixo motriz rígido, por exemplo, não tem problemas com juntas homocinéticas danificadas como os carros de hoje, castigados pela falta de manutenção da malha viária brasileira. Quanto ao motor, a menor complexidade também acaba sendo favorável, ao permitir reparos com recursos mais simples em qualquer beira de estrada enquanto um motor moderno fica mais dependente de equipamentos sofisticados. Vale destacar que, por mais que apenas recentemente a reciclabilidade esteja em evidência, um carburador ainda é consideravelmente mais simples de reprocessar do que componentes de um sistema de injeção eletrônica...

Mesmo modelos mais simples, como o Chevette, podem ter vantagens em comparação com a atual geração de carros populares com motor 1.0 brasileiros, ao considerar que, para apresentarem valores de potência mais atraentes ao consumidor, acabaram tendo a faixa de torque deslocada para rotações mais altas, o que acaba por aumentar o consumo de combustível.

Um argumento até bastante comum entre os que se manifestam desfavoravelmente aos automóveis antigos é relacionado à poluição do ar. De fato, os controles eletrônicos incorporados nos motores mais recentes auxiliam a manter os parâmetros de funcionamento do sistema de injeção ajustados em tempo real visando à eficiência, mas isso não impede que um carburador bem ajustado ainda apresente bons resultados...
Outro ponto que merece destaque é a questão do uso de biocombustíveis: chega a ser até mais fácil adaptar um modelo antigo com carburador para funcionar com biocombustíveis devido à menor complexidade mecânica, tanto o etanol quanto o gás natural (neste caso sem a necessidade de todos aqueles módulos auxiliares destinados a modificar os sinais que a centralina da injeção recebe de sensores espalhados pelo motor). Enquanto isso, num veículo moderno de plástico ao se usar um combustível diferente das especificações os sensores da injeção fossem disparar códigos de erro ininterruptamente...
A popularização do sistema flexfuel, que alguns consideram mérito exclusivo do gerenciamento eletrônico dos motores modernos, acaba sendo alardeada como se fosse a 8ª maravilha, mas numa época em que sequer pensava-se em injeção eletrônica o Ford Modelo T chegou a oferecer como opcional um carburador adaptado para funcionar tanto com gasolina quanto com álcool de mílho (o famoso "moonshine"). No caso, o controle manual do avanço da ignição ajudava a evitar "engasgos" quando platinado, condensador e distribuidor ainda reinavam absolutos e estatores eram um devaneio de ficção científica...

Outro caso interessante é o bom e velho Volkswagen Sedan, tradicionalmente conhecido no mercado brasileiro como Fusca, ou Carocha nos demais países lusófonos, e que por um breve período chegou a ter versões movidas a etanol: pois bem, certa vez um comerciante de carros usados da cidade de Pelotas me relatou que havia sido proprietário de um Fusca a etanol, e que alguns outros proprietários simplesmente removiam uns restritores de ar que eram posicionados ao redor dos cabeçotes para alcançar temperaturas superiores adequadas ao uso de etanol mais rapidamente devido a problemas com o termostato que controlava a abertura dos respectivos restritores e podiam utilizar gasolina normalmente. Não seria impossível adaptar um sistema semelhante com acionamento manual ao redor do radiador de óleo num Fusca originalmente a gasolina e reacertar a carburação para evitar "engasgos" no uso do etanol, facilmente convertendo o veiculo num flexfuel, reduzindo o impacto ambiental do clássico.

Eu, particularmente, sou favorável aos motores do ciclo Diesel. Mesmo estes, apontados repetidamente como "sujos" devido a problemas com a emissão de material particulado (agravado pela péssima qualidade do óleo diesel brasileiro, com um elevado teor de cinzas), conseguem por muitas vezes superar em eficiência veículos híbridos modernos com motor do ciclo Otto, e o problema da emissão de particulados é facilmente resolvido com a manutenção preventiva (da qual os carros novos não estão isentos) em ordem.

Além disso, motores do ciclo Diesel tendem a sofrer menos alterações no desempenho ao usar biocombustíveis, como biodiesel ou até mesmo etanol...

De volta aos motores com ignição por faísca: um caso que eu considero particularmente intrigante é o dos motores 2-tempos, que tiveram seus dias de glória com os robustos DKW, mas hoje sofrem com um estigma relacionado à queima do óleo lubrificante junto ao combustível: se por um lado acaba aumentando a opacidade da fumaça, por outro evitam o despejo irregular de óleo lubrificante usado no solo e lençóis freáticos.
Devido à popularidade que esse tipo de motor ainda encontra no mercado motociclístico, particularmente para o uso fora-de-estrada, ocorreram alguns avanços no desenvolvimento de óleos sintéticos que reduzem a fumaça. Outra possibilidade é o uso de óleos de base vegetal, como o Castrol SuperKart, que além da origem renovável costumam apresentar maior estabilidade junto às misturas de gasolina com etanol que já não são mais uma exclusividade brasileira...

 Outro ponto que merece destaque é a evolução da segurança nos modelos atuais: freios a disco tomando o lugar dos vetustos tambores, e ainda contando com auxílio de sistemas como o ABS (hoje em dia predominantemente eletrônico, ainda que alguns sistemas 100% mecânicos permaneçam em uso por alguns fabricantes), além dos airbags, cintos de segurança com pré-tensionadores e as zonas de deformação programada nas carrocerias, entre outros pequenos detalhes, auxiliaram na redução de mortes ou ferimentos graves em decorrência de acidentes, mas isso não significa que veículos antigos sejam necessariamente inseguros em todas as circunstâncias. Em locais não-pavimentados, por exemplo, ainda há quem prefira freios sem ABS, por exemplo. Fora isso, mesmo os veículos mais atuais não são imunes a acidentes, que podem ser provocados tanto por inexperiência do condutor quanto por excesso de confiança, este último fator eventualmente exacerbado pela presença de acessórios que dão uma falsa sensação de invulnerabilidade...

Eu não vou negar que existem uns "sucatões" aparentando estarem imprestáveis, mas muitos destes podem ser facilmente requalificados para voltarem a ter condições de rodar nas ruas sem causar o mesmo impacto ambiental da produção de um automóvel novo, mesmo que este acabe tendo uma quantidade significativa de componentes feitos a partir de material reciclado, como vem sendo comum com veículos coreanos...

Logo, por mais que alguns insistam em generalizar qualquer carro antigo como "lixo", há muitos que não ficam numa posição desfavorável em comparação com os mais modernos, nem mesmo no aspecto ecológico...

3 comentários:

  1. Falou tudo, nego acha que só por que o carro é novo é certo e tals. Mas nem sempre é assim.

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  2. Me encantan eses Volkswagen. Muy vetustos pero fueran unos de los mejores autos para el pueblo.

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  3. Eu aprendi a dirigir num Fusca. Nada de direção hidráulica, todo duro. De longe o melhor carro para se aprnder a dirigir.

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