sábado, 4 de fevereiro de 2012

Divagações sobre a posição do motor em veículos

Não há dúvidas que a posição do motor acaba por influenciar uma série de outras características em um automóvel, como a aptidão do Volkswagen Sedan (tradicionalmente conhecido como "Fusca" pelos brasileiros ou "Carocha" pelos portugueses) a terrenos hostis que é em grande parte um mérito do motor traseiro, característica hoje mais restrita a modelos esportivos em função da distribuição do peso visando uma melhor aderência em pistas sinuosas - entretanto, o motor acaba sendo deslocado para uma posição mais centralizada nesses casos, como na Ferrari F430.

Entretanto, em segmentos que vão do esportivo Corvette ao humilde e polivalente Chevrolet Aveo, a motorização dianteira acaba sendo predominante na indústria automobilística mundial.
Vale destacar que, no modelo compacto, está associada à tração dianteira, popularizada pela Citroën com a série "Traction Avant" (7CV Legére, 11CV e 15CV), a título de redução de custos e mais "mansidão" junto a um motorista menos experiente.
Nos "Traction Avant" remanescentes em solo brasileiro, entretanto, acabou sendo comum recorrer à adaptação de tração traseira usando componentes de transmissão da Chevrolet, visto que o motor era montado posteriormente ao eixo motriz, que incorporava o câmbio. Vale destacar que nos Citroën seria possível adaptar o eixo dos primeiros Volkswagen Passat e Santana com 4 marchas, apenas invertendo a rotação do câmbio ao alterar a posição de uma engrenagem, de forma a manter a tração dianteira, ao considerar que era basicamente uma versão do câmbio dos Volkswagen de tração traseira modificado para aplicações com motor e tração dianteiros. Há quem ressalte, contudo, que a tração traseira contribui para uma melhor manobrabilidade em espaços confinados devido à ausência de semi-árvores de transmissão limitando os movimentos da direção, por conseguinte reduzindo o diâmetro de giro (e até certo ponto justificando uma alteração tão drástica num veículo que tem uma respeitável história de ousadia e inovação).

A meu ver, a justificativa de adotar motor e tração dianteiros em nome da redução de custos tão em voga atualmente não me parece fazer tanto sentido. Ao tomar por exemplo as antigas Variant e a Parati, o modelo clássico já leva vantagem considerando o sistema de escapamento mais compacto, demandando uma menor quantidade de tubos metálicos, e ainda menos curvas para desvencilhar-se de outros componentes como o tanque de combustível e o eixo traseiro, diminuindo o custo de produção.
Vale destacar que tal solução acabou sendo adotada no questionável Tata Nano, projetado para ser o carro mais barato do mundo e lançando mão de diversos outros recursos como o extenso uso de adesivos de contato.
 Apesar disso, alguns ainda podem apontar um eventual aumento de custo, complexidade e eventualmente sensibilidade num sistema de refrigeração a líquido, caso o radiador seja posicionado à frente como na atual versão da Kombi equipada com o motor EA-111, demandando uma bomba d'água capaz de manter uma pressão mais intensa de modo a evitar "bolhas" de vapor que prejudicariam a circulação, além das mangueiras ficarem mais expostas a obstáculos ao serem montadas sob o assoalho, dificultando eventuais incursões fora de estrada. Porém, além de algumas Kombis antigas e outros veículos Volkswagen com motor traseiro refrigerado a ar ao serem gambiarrados repotenciados com motores de refrigeração líquida (sobretudo o popular EA-827, mais conhecido vulgarmente como "AP") passarem a apresentar o radiador montado em posição lateral junto ao motor, tal solução também pode ser vista nos ônibus de motor traseiro, que ainda contam com uma série de vantagens ao adotarem tal configuração...

Pode-se considerar a menor intrusão do motor e sistema de transmissão bastante vantajosa em operações urbanas ao permitir a adoção de uma plataforma de embarque mais baixa, sem degraus, facilitando a acessibilidade para deficientes físicos sem depender de complexas plataformas elevatórias eletro-hidráulicas, que além de representarem mais um elemento a demandar manutenção preventiva está sujeito a falhas e torna o embarque de um passageiro em cadeira de rodas mais demorado, além de não ser apropriado ao acesso de um carrinho de bebê com o mínimo de segurança.

E apesar dos chassis de motor dianteiro, que não costumam ser nada além de um caminhão sem cabine, serem apontados como mais adequados à qualidade questionável da malha viária brasileira, incluindo vias urbanas com calçamento mais irregular e as infames lombadas, isso pode ser considerado um mito, visto que tanto o vão livre do solo quanto os ângulos de ataque e saída não dependem tanto da posição do motor quanto se pode supor.

Já no transporte rodoviário a vantagem mais significativa se deu devido aos chamados "bagageiros passantes", que além de mais espaçosos e melhor organizados podem ser acessados tanto pela lateral esquerda quanto pela direita, facilitando a acomodação de bagagens e por conseguinte diminuindo o tempo que os veículos ficam parados para o embarque e desembarque dos passageiros nos terminais. Ainda viabilizou a introdução dos "double-decker" no mercado, com uma menor altura total sem tantas restrições à altura interna, favorecendo conforto, aerodinâmica e rebaixamento do centro de gravidade.

Por outro lado, para veículos de transporte de mercadorias o motor dianteiro permanece como a opção mais favorável, visto que mesmo nos modelos de tração traseira (ainda considerada mais apta a serviços pesados) a facilidade para executar operações de carga e descarga tanto pela traseira quanto pelas laterais fica menos comprometida. Caso curioso é o da Kombi, em que nos furgões há um desnível no compartimento de carga e nas pickups o assoalho da carroceria é mais alto como num modelo de motor dianteiro e tração traseira mas ainda há um compartimento adicional abaixo, impossível de implementar nos concorrentes...
 
 

Ao ser associada à tração dianteira, no entanto, o motor dianteiro acaba por permitir um rebaixamento da plataforma de carga, como no Fiat Ducato, posto que a intrusão no compartimento de carga provocada por elementos de transmissão é eliminada. Tal característica, associada à "mansidão" da tração dianteira, acaba justificando a popularidade do modelo no segmento de ambulâncias.

Logo, tanto a motorização dianteira quanto traseira podem apresentar vantagens, cabendo apenas ponderar a aplicação que o veículo vá receber e conseqüentemente qual configuração vá trazer os melhores resultados...

3 comentários:

  1. Gosto do motor traseiro, mas reconheço que o calombo formado atrás incomoda no compartimento de carga. Para uso urbano a configuração do Ducato dá e sobra; quando o piso perde aderência e vem um aclive, a coisa complica.

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    1. Não é à toa que o Ducato europeu oferece um sistema de controle de tração, e algumas versões "tropicalizadas" usam um diferencial LSD para tentar compensar a perda de aderência em aclives.

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  2. Se lo parece muy bueno ese autobús-gusano de Porto Alegre. Me haz recuerdar a unos autobuses sovieticos y chinos pero con un diseño más guapo.

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