domingo, 17 de junho de 2012

Gurgel e o carro popular: um projeto ainda atual

Um dos episódios mais notáveis da história automobilística brasileira nos últimos 25 anos foi o carro popular da extinta Gurgel Motores, que em 7 de setembro de 1987 foi apresentado oficialmente durante as tradicionais celebrações do Dia da Independência na capital federal, mas após algumas discretas melhorias (acompanhadas pela mudança do nome do modelo para Gurgel Supermini) saiu de cena em 1995 com a falência da empresa. Apesar de toda a evolução tecnológica nesse meio tempo, observando características do Gurgel BR-800 SL percebe-se que o projeto ainda atende bem a necessidades atuais de uma parte considerável do mercado automobilístico brasileiro e até mundial.
Com toda a recente empolgação quanto a questões ecológicas, merece destaque o consumo de combustível chegando aos 20km/l (e de acordo com alguns usuários alcançando 25km/l, marca dificilmente atingida mesmo pela atual geração de automóveis híbridos) com a gasolina de baixa qualidade disponível localmente e as limitações técnicas de um "carro velho". O chassi space-frame, agregando alta rigidez torcional a um peso de apenas 42kg, e a carroceria em plástico reforçado com fibra de vidro, além de proporcionar uma boa redução de peso demandavam menos matérias-primas, diminuindo o esgotamento de reservas minerais. Vale lembrar que a fibra de vidro é mais fácil de trabalhar em escalas de produção mais limitadas, mas poderia ser facilmente substituída por painéis de plástico injetado que poderiam ser feitos até mesmo com garrafas PET recicladas.

Claramente inspirado no Citroën 2CV, o motor Gurgel Enertron usado no BR-800 tinha 2 cilindros horizontais opostos (disposição conhecida como boxer), ainda que a refrigeração a ar acabasse por ser descartada. Ainda assim, em comparação com concorrentes de 3 cilindros na mesma faixa dos 800cc ou os 1.0L de 4 cilindros presentes na atual geração de carros populares brasileiros, o layout do motor também diminuía a quantidade de material requerida e simplificava os processos produtivos.

Outra característica extremamente favorável é a tração traseira, ainda considerada por muitos a melhor solução para enfrentar a pavimentação precária (ou mesmo inexistente) em periferias e zonas rurais. O eixo motriz rígido também revela-se adequado, devido à maior robustez em comparação com juntas homocinéticas que podem ser danificadas facilmente até em alguns buracos no asfalto. Em locais altamente urbanizados a tração traseira também apresenta vantagens, visto que a ausência de semi-árvores de transmissão junto ao eixo dianteiro permite ampliar os ângulos de esterçamento da direção, melhorando a manobrabilidade em espaços confinados, como as garagens de muitos edifícios residenciais.

O tamanho compacto, como no japonês Daihatsu Mira, que até teve sucesso durante os anos 90 com a reabertura das importações, também é bastante apreciado no caótico trânsito urbano pela boa manobrabilidade e facilidade em estacionar mesmo em vagas mais apertadas...

Outro modelo de proposta semelhante é o chinês Chery QQ, atualmente presente no mercado brasileiro. Ainda que siga um layout mais próximo do que se tornou padrão nos veículos de fabricação nacional, com estrutura monobloco em aço estampado, tração dianteira e um motor de 4 cilindros em linha com refrigeração líquida, mostra duas características que teriam mais destaque caso o projeto do carro popular da Gurgel viesse a receber atualizações para atender ao consumidor contemporâneo: aquela rejeição a carros de 4 portas ainda forte em segmentos de base e que perdurou até a 2ª metade da década de 90 hoje é uma sombra do passado, e o câmbio de apenas 4 marchas hoje é visto como um símbolo de atraso tecnológico, além de dificultar o escalonamento para aproveitar melhor o potencial do pequeno motor de 2 cilindros, 800cc e modestos 32cv. Além de beneficiar o desempenho mesmo que o diferencial tivesse a relação ligeiramente encurtada para se obter uma aceleração mais rápida e melhor capacidade de aclive, uma 5ª marcha possibilita uma boa redução no consumo de combustível em tráfego rodoviário.

Um ponto bastante polêmico é o design pouco atrativo, ainda que esse seja um aspecto muito subjetivo. No atual cenário brasileiro, o Renault Logam com linhas retas e vidros planos acaba seguindo a filosofia de baixo custo que norteou o Gurgel BR-800. Outra característica de estilo, a carroceria monovolume, proporciona uma maior racionalização da plataforma de carga a exemplo de modelos de classe mundial como o Renault Twingo e o Honda Fit.

Na prática, mesmo sem um maior aprofundamento em questões de ordem econômica e social que tornam a popularização do automóvel 0km um sonho ainda distante para muitos consumidores brasileiros, pode-se concluir que o carro popular da Gurgel ainda é uma boa referência para projetos mais modernos...

9 comentários:

  1. Frieza por parte dos governantes da época...
    Se o Sr. Collor tivesse sido menos arrogante hoje teríamos uma marca 100% nacional e que poderia fazer frente com os Chineses e Coreanos... E claro uma fonte de emprego para nosso país, o que tanto eles pregam nunca foi o que eles fizeram... Abraços do Amigo Gabriel Carvalho

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    1. Da parte do Collor, o problema é que ele não sabia as reais necessidades do mercado automobilístico brasileiro quando deu início ao programa do carro popular, e o próprio consumidor brasileiro se iludia achando que cilindrada é sempre mais importante que a tecnologia agregada no projeto do veículo como um todo.

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  2. Mais que o Collor, quem enterrou o sonho do Sr Gurgel foram os "Srs" Ciro Gomes,Luiz Antonio Fleury e Itamar Franco... ambos previligiaram a VW e mandaram Gurgel as favas.......

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    1. Primeiro foi o Collor ao conceder a brecha para a Fiat introduzir no mercado interno o Uno Mille, totalmente anti-patriótico e só criticando ao invés de propor soluções para que as empresas de capital nacional pudessem competir de igual para igual com as estrangeiras em termos de desenvolvimento e acesso a novas tecnologias (e mesmo assim tem quem considere Engesa e Agrale Marruá melhores que Land Rover Defender, por exemplo). Criticava tanto os carros nacionais mas abriu as pernas até para a Lada. A propósito: não seria impossível a Fiat introduzir no Uno um motor de 800cc como foi usado no modelo polonês, e já enquadrado na mesma faixa tributária que originalmente beneficiava o Gurgel BR-800...

      Fleury e Ciro Gomes foram um capítulo à parte, andaram para trás de um jeito vergonhoso com relação ao protocolo de intenções assinado para a instalação da fábrica de câmbios em Eusébio-CE depois de toda a burocracia e investimento PRIVADO necessários para a instalação da unidade industrial. Uma vergonha que na hora H não ter sido liberado o crédito prometido à Gurgel Motores...

      Já o Itamar, sabe-se lá qual foi a verdadeira motivação dele. Há rumores de que ele havia sugerido à Volkswagen que relançasse o Fusca, e por tabela aberto uma brecha para o uso de motores maiores nos populares, para agradar a uma namorada que tinha um Fusca. Mas ele levou para o túmulo a verdadeira motivação, então agora já era...

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  3. Quem desprestigia o Gurgel não sabe o que fala, é um dos melhores carros que já foram feitos. Só esse motor que era pequeno demais, mas pela tecnologia da época era digno de respeito.

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    1. Eu até gosto do layout de 2 cilindros boxer, que ainda é usado em motos BMW, mas realmente se fosse desenvolvida uma versão 1.0L do motor Gurgel Enertron a competitividade seria maior no mercado nacional depois que o Collor aumentou a faixa de cilindrada dos "populares". Não vou negar que tem outras características do projeto original que eu não gosto muito, como o uso de corrente de comando de válvulas que poderia ser substituído por um sistema mais simples só com engrenagens como no Fusca, e o uso de um estator semelhante ao de motocicletas ao invés de um alternador, de modo que fosse possível eliminar a correia como originalmente pretendia fazer o Amaral Gurgel.

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  4. Era um carrinho bom mesmo, pode ser peladão demais mas era melhor feito que os carrinhos chineses novos.

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    1. O projeto priorizava uma racionalização no uso das matérias-primas, tanto que mesmo com o uso de materiais de qualidade numa quantidade menor foi possível manter um nível de rigidez torcional e de resistência a impactos acima da média que ainda hoje envergonha os carros "populares" brasileiros.

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  5. tenho um gurgel br 800. na minha vida. e so' falo uma coisa tenho maior orgulho deste guerr
    eiro

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