quarta-feira, 13 de março de 2013

"Performance ambental": o buraco é mais embaixo

Na hora de avaliar o quanto um veículo é "ecologicamente-correto", não é incomum modismos de época prevalecerem sobre especificações técnicas, dando margem a resultados questionáveis. E assim, de forma arbitrária, os méritos de modelos como o Suzuki Vitara ficam em segundo plano, ofuscados por estereótipos que associam veículos orientados ao off-road recreacional a uma imagem de "poluidores".
Um tio meu chegou a ter um Vitara, mas substituiu o motor 1.6L original a gasolina por um 1.6L a diesel da Volkswagen, passando a alcançar médias de consumo na faixa dos 18km/l constantemente, melhor que qualquer carro popular 0km, ainda que em tráfego rodoviário os modestos 50hp fossem exigidos sem dó... Em alguns mercados onde a disponibilidade desse tipo de propulsor é crucial para o sucesso comercial, mais notadamente a Europa devido ao custo dos combustíveis e a Austrália em função das condições ambientais extremas e longas distâncias sem qualquer infra-estrutura próxima em algumas rotas pelo interior, o Vitara chegou a ser oferecido com a opção pelo motor Peugeot XUD9 1.9L que, se no pequeno utilitário não chega a fazer milagres no tráfego rodoviário em função das relações de marcha muito curtas (mais apropriadas ao uso em ambientes severos), maiores atritos internos na transmissão e aerodinâmica pouco apurada, em modelos mais leves, aerodinâmicos e dotados de uma transmissão mais eficiente como o Peugeot 306 podia facilmente manter médias de consumo entre 16 e 21 km/l.
Feitas as devidas ressalvas no tocante aos recursos técnicos da época, os resultados do antigo 306 ainda são dignos de louvor, mesmo em comparação com modelos mais modernos na mesma classe de tamanho como o Toyota Prius, que recorre a um complexo sistema híbrido para obter médias entre 18 e 21km/l usando gasolina. Convém destacar que, enquanto o motor Peugeot XUD9 ainda é muito aclamado devido à grande adaptabilidade a combustíveis alternativos como o biodiesel e óleos vegetais, além de operar num ciclo termodinâmico mais eficiente, os híbridos estão inseridos numa polêmica a respeito da composição química e do footprint das baterias tracionárias desde a produção até o descarte...
Também é conveniente notar que, para muitos que se consideram "mais ecologistas" por conduzirem um veículo alardeado por marqueteiros como "amigo do meio-ambiente", na prática não aceitam abrir mão de certos mimos que acabam impondo uma maior exigência sobre o motor, e por conseguinte reduzindo a eficiência energética do veículo como um todo, como ar condicionado e câmbio automático. Para eles, a simplicidade franciscana de um Citroën 2CV seria um sacrifício demasiadamente inglório para manter a pose "sustentável" diante de uma horda de bajuladores...
Tomando novamente por referência o "Fusca francês", alguns atributos merecem destaque especial: o peso contido, além de favorecer a economia de combustível, traz vantagens em função do menor desgaste imposto a elementos de suspensão e material de atrito dos freios, requerendo menos substituições de tais componentes, o que acarreta uma redução no gasto de matérias-primas e energia necessária para beneficiá-las. Também é digna de nota a refrigeração a ar, que além de menos dispendiosa por não requerer aditivos de radiador também evita a contaminação de grandes quantidades de água por tais substâncias ao longo da vida útil do veículo, além dos danos ao lençol freático que poderiam ocorrer em caso de vazamento.

Retomando os híbridos como referência mas ampliando o foco também para elétricos puros como o Nissan LEAF, convém observar novamente a questão do conforto: tais modelos, que na teoria são projetados com todo um enfoque em eficiência e conservação de energia, ao serem equipados com ar condicionado acabam por apresentar um aspecto contraditório, visto que tal dispositivo impõe uma grande demanda sobre o sistema elétrico, além do acréscimo de peso ao veículo. E mesmo o gás HFC-134a hoje usado para refrigeração, que não decompõe a camada de ozônio como o CFC, hoje é apontado como um dos chamados "gases-estufa" que estariam induzindo um aumento nas temperaturas médias a nível mundial. Nesse cenário, a climatização evaporativa, muito popular em caminhões, pode ser apontada como uma opção mais coerente à proposta "ecológica".

Ao invés de gases sintéticos, um climatizador evaporativo utiliza apenas água, além de ter menor complexidade técnica e por conseguinte proporcionar uma redução tanto no peso agregado ao veículo quanto na demanda por energia e, no caso de um veículo com tração convencional, sem assistência elétrica, tomando por exemplo a Kombi, acaba livrando o motor do ônus de acionar o compressor do ar condicionado, o que além de interferir no consumo de combustível prejudicaria o desempenho do veículo.

Portanto, antes de se prender a modismos e ao discurso mirabolante de publicitários, é importante sempre lembrar que o buraco é bem mais embaixo...

8 comentários:

  1. até que o prius é bom, mas com motor a diesel ia ficar melhor

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    1. A aerodinâmica é bem apurada, e mesmo que fosse equipado com um motor a diesel sem a assistência elétrica já conseguiria boas médias de consumo.

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  2. No caminhão fica até fácil compensar o peso do climatizador em comparação com o ar condicionado mas não deveria pesar tanto num carro pequeno.

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    1. O problema maior ainda é o prejuízo à aerodinâmica, que vem sendo minimizado nos climatizadores mais compactos lançados recentemente.

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  3. Nós já temos o álcool que é mais limpo que a gasolina mas é tão mal aproveitado, esses carros flex são uns patos, não funcionam bem nem na gasolina nem no álcool e pior ainda se botar no gás.

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    1. Por incrível que pareça, um motor de ignição por compressão (ciclo Diesel) pode até ser mais adequado como base para um motor "flex", embora não possa usar gás puro, sem algum combustível líquido para gerar a chama-piloto na ausência de velas de ignição.

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  4. Estou com um megane velho que eu só consegui comprar barato por não ter ar condicionado mas estou começando a me arrepender de ter abrido mão do ar condicionado. Quando custa já instalado esse climatizador? Já vi ser usado numa fiorino transformada em ambulância e parece bom.

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    1. Pode esperar gastar numa faixa de S900 a $1100 se for usar tudo novo.

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